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A antiga guerra comercial entre EUA e China

Artigo escrito pelo colaborador Carlos Júnior

A guerra comercial entre Estados Unidos da América e China é o assunto da moda para os comentaristas de economia no jornalismo brasileiro.

Como é difícil encontrar alguma época em que a mídia brasileira foi confiável ou serviu de parâmetro para alguma coisa, desnecessário dizer que a questão é tratada de maneira totalmente equivocada, contendo inúmeras bravatas. Ainda mais se tratando da era Trump, na qual o velho antiamericanismo guardado em partes pelas viúvas de Obama reacendeu com força total.

O objetivo deste humilde artigo é analisar a questão de forma coerente com os fatos, esmiuçando os desdobramentos, acontecimentos históricos, verdadeiras intenções de ambos os lados e perspectivas a partir da recente reunião do G20. E claro, desmentir as fraudes contidas nas análises falsas. O ponto inicial a ter mente é muito simples e necessário: esta guerra comercial não começou com Donald Trump. Ela já vem se desenrolando nos bastidores faz um bom tempo, necessitando apenas de um presidente anti-establishment para deixá-la clara ao público geral.

Vamos voltar ao crucial ano de 1972. O então presidente dos EUA Richard Nixon decide restabelecer relações diplomáticas e comerciais com a China depois de anos de rompimento total com o país. Tal atitude ainda gera um pouco de simpatia a Nixon – mesmo após Watergate. O que não se atentou a época foi para o desenrolar e as consequências de tal ação. Nixon não apenas fez os EUA voltar a se relacionar com a China diplomaticamente, mas entregou de bandeja tecnologia americana para o regime comunista chinês.

Contrariando sua promessa de campanha de isolar o comunismo, Nixon multiplicou por dez o comércio com os comunistas – incluindo aí a China. Fábricas de caminhões foram construídas em países comunistas por empresas americanas com aval e estímulo da Casa Branca. Patentes industriais entraram nessa benevolência que beira a burrice. A partir desse ponto, a China – outrora país pobre e que viu milhões de seu povo morrerem de fome – começou a despontar como grande potência econômica e comercial.

Tal processo lembra um pouco o que aconteceu com o Japão. De nação arrasada pelas bombas atômicas e atrasada tecnologicamente, o Japão conquistou um crescimento econômico estrondoso por um capitalismo com certa intervenção estatal. Muito pela abertura generosa de mercado feita pelos americanos a produtos japoneses, combinada com o estímulo financeiro dos EUA ao desenvolvimento da economia japonesa. Quando o governo Ronald Reagan mudou a situação, o Japão capengou até entrar em recessão nos anos 1990.

Com isso, a China experimentou um capitalismo com controle estatal que deu certo no Leste Asiático, a exemplo de Japão e Coréia do Sul – enquanto esses dois países desfrutaram graciosamente de muito dinheiro americano para serem vitrines capitalistas durante a Guerra Fria. Claro, a exemplo dos japoneses, a China experimentou superávits comerciais generosos com os EUA durante décadas sem que isso fosse considerado um problema real ao governo americano. Bill Clinton tentou timidamente uma solução que não veio.

Durante esse período 1972-2017, a China foi vista como uma potência militar e uma adversária dos EUA sempre no campo militar, mas nunca econômico. Prova disso é a entrada do país na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1999 com o status de país em desenvolvimento, dando aos chineses o privilégio de não ter que seguir regras iguais às nações desenvolvidas sobre subsídios nacionais para propriedade industrial e intelectual. No ano anterior, o déficit comercial dos EUA para com a China foi de US$ 60 bilhões.

Na campanha presidencial de 2016, Donald Trump já falava em mudar a relação comercial e tratar a China de maneira justa. Para ele, além de desvalorizar sua moeda e usar patentes americanas de forma ilegal, os chineses também sobretaxam produtos americanos a níveis absurdos. Não raras as vezes o governo americano abriu processos contra o país na OMC depois de inúmeras queixas de produtores americanos. Em 2015, segundo dados do governo americano, o déficit comercial ficou estimado em US$ 367 bilhões.

Tal diagnóstico é mais do que suficiente para justificar medidas protecionistas do governo americano para lidar com as claras lesões chinesas ao comércio, indústrias e investidores americanos. Se a China continuar a fazer o mesmo e não resolver o problema, ela própria sofrerá os efeitos negativos disso e a enorme bolha que é sua economia irá estourar. De uma forma ou de outra, seu destino parece ser o mesmo do Japão nos anos 90: recessão. Na melhor das hipóteses, uma estagnação econômica é o que lhe aguarda.

A recente reunião do G20 na Argentina deu uma trégua na guerra comercial. Ambos os países se comprometeram a não lançar mão de novas taxas um contra o outro. Parece ser um bom começo. Mas a China não aceitará totalmente as medidas americanas de reação a seu protecionismo, tendo em vista que renunciar de suas práticas comerciais iriam colocá-la numa posição desconfortável e seu enorme superávit comercial com os americanos viraria pó. A administração Trump está determinada a resolver o problema, deixando-a sem muita escolha.

Portanto, a guerra comercial entre EUA e China não é tão nova quanto parece ser. Ela foi declaradamente travada apenas de um lado, enquanto o outro priorizava outros campos para atuar. Durante décadas o cenário foi esse. As medidas e práticas chinesas parecem estar com os dias contados, uma vez que o presidente americano é anti-establishment e de negócios entende bem. Um acordo mutuamente vantajoso para as duas partes é possível – e é o que o comércio mundial espera.

Referências:

1.JHONSON, Chalmers. Blowback: os custos e as consequências do império americano. Rio de Janeiro: Record, 2007.

2.ALLEN, Gary; ABRAHAM, Larry. Política, ideologia e conspirações – a sujeira por trás das ideias que dominam o mundo. Barueri: Faro Editorial, 2017.

3.BBC

4.G1

Artigo escrito pelo colaborador Carlos Júnior

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da Renova Mídia.

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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