COLUNA: A situação geopolítica na Venezuela


O fato ocorrido nesta terça-feira (30) na Venezuela mostra algumas coisas que parte dos observadores mais atentos sobre a situação na terra de Simon Bolívar sabe há tempos. Veículos militares avançaram sobre manifestantes contrários à ditadura de Nicolás Maduro, num ato cruel, torpe e covarde.

Já fiz em outro artigo um breve resumo do que o conflito na Venezuela representa em termos geopolíticos, quais são as correntes de poder e qual a melhor solução para que o país consiga sair da atual ditadura para um regime provedor de estabilidade política e liberdade para o seu sofrido povo. Agora, vou dar nome aos bois novamente e explicar quais os objetivos e consequências da situação venezuelana para o próprio país e para o resto do mundo.

Deve-se ter a perspectiva de que os acontecimentos na Venezuela ilustram não apenas um regime autocrático lutando por sua sobrevivência contra uma população civil, mas um emblemático emaranhado de interesses de facções políticas mundiais. Uma vez adotada como verdadeira tal premissa, veremos então o que querem tais facções.

Do lado do regime socialista de Nicolás Maduro, temos o esquema russo-chinês e a Fraternidade Islâmica. Ambas as correntes buscam seus próprios interesses – nem sempre convergentes –, mas estão juntos na defesa do ditador venezuelano. Embora a parceria das mesmas é notável em outros fatos, como a recente aproximação da Turquia com a Rússia, o apoio a Maduro é prova cabal da colaboração entre ambas.

O esquema russo-chinês precisa apoiar Maduro para manter na América Latina o único ditador socialista antiamericano confiável no poder. A Rússia de Putin tem o objetivo de dominar o mundo e fazer da geopolítica um jogo multipolar, com vários parceiros distintos unidos pelo antiamericanismo. Isso nada mais é que a definição do eurasianismo, movimento político russo que aponta o dedo para os Estados Unidos e o culpa de todas as desgraças ocorridas desde a Guerra Fria, e com isso busca firmar alianças com líderes dos quatro cantos do mundo que sejam hostis aos EUA. Buscando na história russa bases para o país trilhar esse caminho, o eurasianismo vem encantando muitos jovens intelectuais no mundo inteiro pela facilidade de explicar a política mundial e os grandes eventos. Nessa empreitada, a Rússia de Putin tem na China comunista um de seus fiéis parceiros. Portanto, o esquema russo-chinês apoia com muita firmeza Nicolás Maduro e líderes de seu tipo para tocar em frente seu projeto de dominação global.

A Fraternidade Islâmica apoia Maduro também por este ser um líder antiamericano, e sua ditadura socialista é vista com bons olhos por uma característica cara aos regimes comunistas: a perseguição ao Cristianismo. Sendo uma organização política com base na fé muçulmana, ela busca estabelecer em seus países a xaria – conjunto de leis advindos do Islamismo. A xaria é um passo para o objetivo cabal e último: o califado universal, a islamização de todo o mundo e a eliminação de qualquer outra religião ou influência religiosa. Seu principal inimigo é o Ocidente, e nele recai todos os erros e a degradação dos valores e culturas milenares. Os EUA, maior potência ocidental, também é um inimigo declarado – os atentados terroristas e alianças com outros países com base no antiamericanismo mostram isso. Nicolás Maduro é um líder antiamericano, e para sua sobrevivência necessita de muitas alianças com outros países. Dentre esses países, estão os governados por membros e facções ligadas à Fraternidade Islâmica.

Nessa altura o leitor pode lembrar da definição dos três globalismos do professor Olavo de Carvalho e perguntar onde está o metacapitalismo ocidental. Ironicamente, ele converge com seus inimigos – EUA, líderes nacionalistas e direitistas – em oposição à ditadura de Nicolás Maduro, mesmo que com objetivos totalmente distintos.

O Metacapitalismo Ocidental não vê com bons olhos a ditadura de Nicolás Maduro porque quer que o governo americano intervenha nos quatro cantos do planeta, fazendo o papel de ‘’polícia do mundo’’. E o quer simplesmente por tal caminho ser extremamente caro e nocivo aos EUA, seu principal inimigo. A dívida pública americana está em US$ 21 trilhões, e novas guerras e manutenção de militares em outros países aumentará bastante sua dívida. Os metacapitalistas querem um governo global, e com a eliminação total das nações. Para isso, buscam a destruição dos EUA, da religião cristã e todas as soberanias nacionais. A destruição interna dos EUA é feita em sua grande maioria pela colocação de presidentes democratas na Casa Branca – mesmo que alguns republicanos também possuam ligações com os globalistas ocidentais. A destruição externa é feita colocando o país em inúmeros conflitos e guerras inúteis, fomento do antiamericanismo no mundo e falta de ação em casos realmente necessários. Nicolás Maduro é uma liderança antiamericana, mas possui ligações com os outros dois globalismos.

No meio dessa confusão imensa, temos o governo Trump. O presidente americano rejeita fortemente o globalismo ocidental e sua ideia de intervenção militar na Venezuela, mas sabe que uma falta de tomada de atitude na questão é ponto para os eurasianos. Com sua ideia de tirar os EUA de outros lugares no mundo e focar no front interno, Trump busca fortalecer um gigante em declínio. Para isso, deve fazer isso de maneira que não dê aos eurasianos um fortalecimento de sua estratégia política. O jogo de pesos e contrapesos da geopolítica americana é um quebra-cabeça muito complexo, sem margem para erro.

Não sabemos qual a resultante de um conflito tão complexo que envolve o mundo inteiro, nem como a Venezuela sairá depois de um desfecho ainda inimaginável. O certo é que os projetos de dominação global estão do lado de um ditador desprezível, e algo deve ser feito para o bem do povo venezuelano. Amando ou não os EUA, o país é a única força capaz de fazer algo contra os três globalismos, dos quais dois dão suporte a Maduro.

As ligações do líder oposicionista e presidente interino Juan Guaidó com os liberais globalistas não são desculpa para que nada seja feito. Maduro precisa cair para o bem da Venezuela e do restante do mundo também.

Referências: [1][2][3][4][5]

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