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COLUNA | Embaixada dos EUA: riscos e vicissitudes


Corre há pouco a notícia, que vem gerando debate acalorado, sobre a hipótese do Deputado Federal Eduardo Bolsonaro, que o pai carinhosamente trata por “03”, em assumir a importantíssima Embaixada Brasileira em Washington.

Li várias manifestações contrárias e favoráveis, mas em nenhuma delas tivemos o debate dos prós e contras em relação a essa missão diplomática ser confiada a Eduardo Bolsonaro justamente neste momento.

Uma das únicas vozes a perceber a inconveniência do momento foi a do Prof. Olavo de Carvalho – com toda razão, mostrou essa inconveniência com argumentos internos, mas mudou de posição quando foi alertado de que o pedido teria partido, ao que se sabe, do próprio Presidente Trump.

Para não dizerem que sempre concordo com o querido Professor Olavo, neste ponto, justamente o fato do pedido ter partido de Trump e neste momento da história dos EUA é que acabei, de certa forma, acentuando minha discordância com a manobra.

Muito antes de Trump sequer imaginar ser candidato, eu ministrava aulas desde os idos de 2008 de Negociação Estratégica e Trump sempre esteve entre meus cases prediletos para debater em sala de aula.

Donald Trump é sem a menor dúvida um dos maiores empresários da história dos EUA, ao lado de nomes como John Pierpoint Morgan, Steve Jobs, John D. Rockefeler, Thomas A. Edison, Elon Musk, Frederick Taylor, John Ford, Nikolas Tesla, Andrew Carnegie e outros tantos gênios do empreendedorismo. 

Trump tem características em suas estratégias de negociar que são únicas e formam, de fato, um manancial robusto de técnicas que precisam ser estudadas pelos próximos anos e décadas.

Seu clássico Art of the Deal, uma espécie de autobiografia com abordagens estratégicas em momentos cruciais de sua vida, é um ótimo roteiro para compreender como Trump age.

Para saber como serão os seus próximos passos como político, quem conhece seus cases como empresário e as conclusões dos seus principais analistas (como Richard Shell, por exemplo, em seu Bargaining for Advantage) tem uma facilidade muito maior para antever seus próximos passos na Casa Branca.

A vida de Trump como homem político, sob o ponto de vista estratégico, é uma perfeita réplica muito melhorada de sua carreira vitoriosa como homem de negócios. Para entender o que Trump poderá fazer em eventual e quase certo segundo mandato, basta analisar como Trump desenhou sua carreira após o case Tiffany. Esse case foi um tremendo divisor de águas na carreira de Trump como homem de negócios e dele Trump extraiu lições de vida fundamentais e estratégias que ele vem usando frequentemente em sua vida política – desde suas negociações com a Coréia do Norte até a forma como ele enfrentou as acusações internas sobre o tal “Conluio Russo”.

Isso faz de Trump não apenas um dos maiores empresários de todos os tempos, mas também e sobretudo, talvez, o maior presidentes dos EUA desde Abraham Lincoln.

Trump não é uma pessoa qualquer e um pedido seu precisa ser analisado com muita cautela e paciência.

Para isso é necessário compreender o contexto onde o pedido está inserido.

Atualmente, esse contexto já é de reeleição.

Hoje, a coisa mais importante para Trump é a sua reeleição.

Sua prioridade número 1 é não deixar que impeçam seu curso de medidas que está mudando os EUA para sempre – é duro para muitos ter que admitir, mas a realidade de Trump, hoje, não passa por tratar o Brasil como uma de suas prioridades finais.

O Brasil é hoje um elemento importantíssimo e uma prioridade de meio, qual seja, uma prioridade instrumental, pois o Brasil traz vantagens em seu projeto de reeleição. Mas ao convidar Eduardo Bolsonaro para representar o Brasil em Washington, Trump não está interessado no Brasil, mas sim única e exclusivamente em sua própria reeleição. Eduardo é peça-chave em seu processo de reeleição.

O elemento principal de Trump é apresentar resultados até meados de abril/maio de sua guerra contra a imigração ilegal, incluindo a construção do muro na fronteira do Sul.

Esse resultado e as marcas desse controle sobre a imigração ilegal com redução de índices de criminalidade será o principal argumento de Trump que o credenciará para um segundo mandato.

O contraponto a esse argumento é a narrativa esquerdista de que Trump, ao combater a imigração (ainda que ilegal) e construir um muro, estaria contrariando um dos pilares da formação do estado americano: o papel do imigrante. Pior: irão tentar colar-lhe a pecha de racista, preconceituoso, etc, etc, etc.

Para neutralizar esse discurso, o Brasil é peça-chave e Eduardo Bolsonaro poderá ajudar demais Donald Trump a provar, na prática, que ele, Trump, é na verdade um grande amigo e excelente parceiro dos latinos, desde que sejam os legais.

É um ótimo e brilhante argumento de campanha e de defesa dos valores pró-imigração legal. Mas para Eduardo Bolsonaro e, sobretudo, Jair Messias, a jogada é de alto risco. Ajudar o atual presidente em sua reeleição, ainda que de forma indireta, traz elementos complicados para a já altamente complicada política interna no Brasil. Lembremos que Jair Bolsonaro ainda não venceu a narrativa que tentou derrotá-lo eleitoralmente – Jair venceu nas urnas, mas a narrativa ainda está viva e precisa ser combatida diariamente.

E é aqui que a questão da Embaixada precisa ser estudada com cautela.

Esse estudo, onde pude ver até este momento, não foi feito e sequer está sendo pensado: Eduardo Bolsonaro assumiria a Embaixada Brasileira em Washington no que promete ser uma das eleições mais duras, complexas e disputadas da história dos EUA até então.

Não é uma Missão fácil e ela comporta sim, graves e sérios riscos para o Brasil, não em seu plano internacional, mas sobretudo no plano interno, quando vista sob o prisma da interferência positiva (ainda que indireta) de ajudar um candidato de uma nação amiga, em detrimento de outro (por pior que o outro venha a ser).

O balanço desses riscos vis-à-vis as vantagens que poderiam propiciar, também não vêm sendo alvo de um debate justo e coerente na mídia, e nem mesmo entre os meios conservadores.

A mídia mainstream é permeada por um debate tosco, rude, grosseiro e caricato – tenta atacar as credenciais do Deputado Eduardo Bolsonaro com argumentos pouco razoáveis, incoerentes e baixos. Sua experiência como parlamentar e, atualmente, sua liderança na CREDN (Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional) da Câmara são requisitos bastante suficientes para reconhecer as credenciais do parlamentar Bolsonaro.

Portanto a questão mais delicada não diz respeito à sua capacidade para liderar a representação do Brasil em relações internacionais, mas sim, especificamente, esta relação internacional com os EUA e neste exato momento.

Eduardo Bolsonaro, ao que me consta, não tem experiência em pleitos eleitorais de outros países e, salvo melhor juízo, talvez não tenha a maturidade para perceber as “cascas de banana” que a esquerda americana irá jogar para que ele pise e, consequentemente, possa atrapalhar os planos de Trump.

Eduardo terá que ter muita cautela e agir com muita sabedoria se for confirmado embaixador do Brasil nos EUA em ano de eleições naquele país em que o presidente com quem ele tem contato pessoal está num jogo vital para garantir a sua reeleição, contra uma esquerda cada dia mais barulhenta, violenta, desonesta e suja.

Vejo vantagens sim em termos Eduardo por lá: a aceleração do ingresso do Brasil na OCDE; a entrada do Brasil na OTAN; a revalorização do Brasil na ONU; as centenas de tratados e oportunidades comerciais que poderão ser abertas para o Brasil e para os brasileiros na maior e mais democrática nação do mundo – enfim, são inúmeros ganhos possíveis (ou, talvez apenas prováveis). Mas o custo é uma exposição de seu papel e de sua proximidade com Trump em ano de eleições.

Trump teve os três primeiros anos de seu primeiro mandato assombrado por acusações de “interferência russa” (a tal Russia Collusion) e ao fim provou que a interferência, na verdade, esteve muito mais ao lado dos Democratas que de qualquer outro lado.

Essas eleições, em termos de espionagem e jogo sujo, farão, tenho certeza, Nixon parecer uma brincadeira de “Detetive” e tendem a mostrar que o que Glenn Greenwald fez no Brasil com o Ministro Moro é apenas uma “amostra grátis” do que está por vir nessas eleições 2020 (tanto no Brasil, quanto nos EUA, quanto o que já está ocorrendo nas eleições para o 21º Knesset em Israel, de onde vim recentemente).

Imaginem agora Eduardo Bolsonaro envolvido em uma narrativa dessas – a chance disso ser usado pela esquerda, pela centro-esquerda e sobretudo pela ala isentista dessa “nova oposição” é de alta para certa.

Estaria assim, dentro de uma mera narrativa, configurado o risco de um “crime de responsabilidade” (uso de verbas públicas e de um cargo diplomático para beneficiar um candidato num pleito eleitoral estrangeiro). É uma narrativa pronta e suculenta para quem joga sujo.

E bastaria um artiguinho qualquer em um blog qualquer para disparar uma crise ligando o dinheiro público brasileiro à campanha de Trump via Eduardo Bolsonaro.

Basta Eduardo Bolsonaro se fazer presente em algum rally do candidato Trump para o problema ser instalado.

Para Trump o risco é baixo e ele já mostrou que pode muito bem se desvencilhar na hora exata, quando seu projeto pessoal entra em zona de risco – essa certeza que Trump pode ter, certamente Bolsonaro não tem: a guerra de narrativa aqui no Brasil é de mais risco para Bolsonaro do que para Trump.

As vantagens são mesmo indizíveis – mas pergunto: será que isso tudo não pode esperar a confirmação de Trump para um segundo mandato na Casa Branca? Por que ir para essa posição justo agora? Eduardo não poderia ser testado na Embaixada Brasileira na Itália para pegar alguma expertise em uma excelente parceria com o governo Salvini? E a ideia de Eduardo liderar a Missão diplomática para a abertura do escritório de negócios em Jerusalém – não seria uma boa oportunidade inicial para Eduardo, antes mesmo de assumir a missão top de liderar as relações Brasil-EUA?

Eduardo Bolsonaro tem também, como alertou Olavo, não apenas uma CPI, mas um partido para arrumar e, de quebra, uma eleição regional para organizar em 2020 (igualmente). Há argumentos de sobra para que esse projeto não seja implementado agora.

Que tal se Eduardo postergasse esse projeto para 2020?

Zeraria esse risco de ser jogado em uma narrativa de ajuda a um candidato em pleitos estrangeiros, pavimentaria um bom caminho para o conservadorismo brasileiro aqui, in loco e, ao fim e ao cabo, asseguraria o apoio do Senado em um momento que não seja de fragilidade política (como hoje, em que temos ainda pendentes não apenas a Reforma da Previdência e a reforma penal via Pacote Moro) mas de eventual sucesso já após essas aprovações parlamentares, eleições regionais e até resultados colhidos em uma CPI do Foro de SP.

Ser conservador, conforme já escrevi nesta coluna, é saber o que é de fato ser prudente (e nada tem e a ver com as besteiras ditas por Mark Lilla que são uma ode à censura e à covardia) – esta é a hora de Jair Bolsonaro mostrar que é, no melhor estilo conservador, um homem corajoso, mas, sobretudo, prudente.

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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