COLUNA: Minhas impressões de ‘’O Jardim das Aflições’’

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O professor e filósofo Olavo de Carvalho é um intelectual de inteligência arrebatadora. Qualquer um que não se deixe enganar pelas opiniões toscas do establishment cultural brasileiro consegue atestar isso. De sua vasta obra já tive o prazer de ler cinco livros, sendo um deles o foco deste artigo: ‘’O Jardim das Aflições – De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil’’.

A obra que expõe a filosofia própria de Olavo nasceu de uma conferência sobre Epicuro dirigida por José Américo Motta Pessanha no MASP em São Paulo. Pessanha apresentava a ética de Epicuro como um caminho perfeito a ser seguido pelos brasileiros – numa época onde a palavra Ética estava na moda entre os intelectuais pelo seu tom político. Tamanhas as distorções na explanação de Epicuro feita por Pessanha foram aflorar os instintos de Olavo a fazê-lo uma espécie de resposta, ideia depois abandonada e então veio surgir o livro.

Olavo defende no livro que a história do Ocidente é marcada fortemente pela ideia de Império e de sucessivas tentativas de fazê-lo viável. Mas antes de chegar a esse ponto, o escritor perpassa por séculos na história das ideias do Ocidente e desbrava de forma corajosa e inédita um campo minado e obscuro.

Começando por Epicuro, Olavo mostra o quanto o epicurismo não faz o menor sentido em qualquer campo possível. ‘’O cosmos de Epicuro não é um cosmos. É um caos, onde galáxias e amebas, mundos e homens formam-se e desaparecem por acaso, ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos’’. Epicuro é um materialista, e para ele absolutamente tudo é material: o corpo, a alma e os deuses, havendo apenas uma diferença de densidade de matéria entre ambos. Tudo o que chega a nosso conhecimento é material, se pensamos em algo, esse algo é material e existe neste mundo como tal. Se o leitor achou a conclusão do filósofo grego um tanto espantosa, é por que ainda não sabe o que está por vir.

Depois da morte, nada nos espera a não ser o esquecimento eterno. Essa é uma máxima do epicurismo e que levaria a todos na busca pelo prazer e a fuga para o jardim de Epicuro. Porém, a mesma máxima entra em choque com o dito anteriormente: se tudo o que pensamos é material e existe, como iriam existir aqueles que já se foram em quem pensaríamos – sabendo que tudo o que pensamos existe em algum lugar? A cosmologia e ética epicúreas são nada mais que encantadoras de serpentes – que o leitor me perdoe o trocadilho não premeditado.

Logo em seguida, Olavo nos mostra a relação entre Epicuro e Marx, e como o que pareceria uma grossa divergência acaba por ser uma terrível convergência. Enquanto o grego nos oferece a fuga deste mundo como solução dos problemas, o alemão ordena a transformação do mesmo visando os mesmos objetivos. Ambos são de uma tradição materialista evocada por Pessanha em sua conferência, embora que, para isso, ele tenha que ter tornado bastante elástico o significado da palavra ‘’materialismo’’. O desprezo pela metafísica também é um ponto comum entre os dois, no qual Olavo chamou de ‘’afinidade negativa’’.

Na sequência do livro, Olavo fala da substituição de Deus e do sentimento religioso como opiniões dominantes na esfera intelectual no Ocidente, e elas são substituídas mediante a divinização do espaço e do tempo. Para Olavo, ‘’é significativo que a divindade suprema desaparecida de vista seja substituída, no culto, por dois tipos de divindades subalternas: deuses do espaço, deuses do tempo. [..] Culto das coisas, culto dos mortos’’.

Terminada tal explanação, Olavo chega na tese que embasa seu livro: a ideia de Império na história do Ocidente. O surgimento do Cristianismo fez ruir todo o sentindo da sociedade greco-romana, no qual o coletivo é o juiz supremo da vida na figura das castas aristocráticas e sacerdotais. O Cristianismo rompe com esse modelo ao instaurar a consciência individual como novo parâmetro para a ação do indivíduo, sendo a salvação de sua alma um objetivo conquistado com sua relação com Deus. O Império Romano cai, mas ainda assim suas estruturas não desaparecem do imaginário do homem europeu.

No período que compreende o fim do Império Romano até o surgimento do Império Carolíngio, a Igreja Católica surge como força organizadora da sociedade, cumprindo um papel que não seu até então, tampouco era um objetivo em questão. A partir daí ela própria busca alimentar a ideia de um Império cristão, mas com as autoridades civis subordinadas a ela mesmo, no sentido de evitar um culto estatal semelhante ao romano. Tal ideia nunca foi uma realidade palpável, e com o fim da Idade Média e o surgimento dos impérios nacionais, os imperadores dispensam a tutela da Igreja e fazem da sua vontade um mandamento divino.

As divisões dos impérios europeus marcam a primeira ruptura do Estado com a Igreja, situação reforçada pela Revolução Francesa. Antes dela, a Revolução Americana forja o Império Americano na figura dos Estados Unidos da América. Tal Império é laico, protestante e republicano, diferente de todas as ideias anteriores de Império na civilização ocidental. A ideia do Estado laico como juiz único e absoluto dos conflitos religiosos parece ser a propensão da modernidade na total desconexão com o passado das religiões e das tradições.

É meus amigos, ‘’O Jardim das Aflições’’ é um livro bastante denso. Teria muito mais a dizer, mas os limites deste humilde artigo não deixam. Que as minhas impressões sirvam para despertá-los a lê-lo e captar a filosofia de Olavo de Carvalho, este pensador brilhante que no cenário brasileiro em que surgiu parecia um Everest no meio do nada.

Referências:  [1][2][3][4]

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