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COLUNA: “O Terceiro Turno” em Israel


Depois da longa cobertura que fizemos para as eleições legislativas de Israel em Abril, responsável pela formação do 21º Knesset dissolvido semanas depois, cá estamos na beira de uma nova eleição para a formação do 22º Knesset.

Vamos relembrar os fatos rapidamente para que noticiemos exatamente o ponto em que estamos e, daí então, traçarmos alguns cenários possíveis do que poderá ocorrer após as eleições de 10 de setembro de 2019.

No final do ano passado, o governo de Benjamin Netanyahu, formado pela coalizão do Likud com vários partidos de centro e de direita, erodiu por conta de uma divergência entre Netanyahu e seu então Ministro de Defesa, Avigdor Lieberman, o líder do Yisrael Beiteinu (Israel [é] a Nossa Casa).

Beiteinu é um partido formado a partir da grande Alyiah russa que se deu com o fim da URSS. Sempre manteve uma posição de centro-direita secular e, com o avançar dos tempos, foi se colocando cada vez mais para a direita. Aquela inspiração revisionista que louvava Jabotinsky ficou para trás, nos anos 1990/2000. O que resta hoje das práticas e do discurso da chamada Doutrina Lieberman (um plano de paz que não passa de uma redução das áreas sob jurisdição da Autoridade Palestina dentro da Samaria e da Judea) são algumas preocupações ideologicamente duvidosas e que asseguraram um surpreendente movimento de Lieberman para o espectro esquerdo do horizonte político israelense.

Dessas preocupações Lieberman fez de sua bandeira a obrigação de serviço militar para jovens que optam pela vida religiosa ortodoxa e o estudo da Torah. Esse tema sempre foi muito delicado na sociedade israelense e a obrigatoriedade do serviço militar por parte dos jovens ortodoxos era, até então, vista com inúmeras flexibilizações e uma alta dose de bom senso. O tema sempre foi, digamos, autorregulado: não havia uma lei regulando essa situação. Desde que a questão da obrigatoriedade do serviço militar (sob o ponto de vista jurídico) foi declinada de análise pelo Bagatz (a Suprema Corte de Israel), o imbróglio se iniciou e vários projetos de lei constando essa obrigação foram tentados.

Lieberman impôs sua permanência no governo condicionada a que Netanyahu suportasse essa sua batalha pessoal contra os ortodoxos. Ocorre que o equilibrado eixo de distribuição das forças à direita do espectro político de Israel conta com dois partidos importantíssimos, o Shas e o Agudat Yisrael (este, também conhecido como United Torah Judaism, ou UTJ). O Shas é o partido dos religiosos ortodoxos de linha sefaradí enquanto que o Agudat é formado por uma forte comunidade ashkenazí de maioria polonesa. Junto desses partidos ainda caminha o Yamina, um partido novo e que ficou de fora do 21º Knesset. O Yamina tem fortes laços com a comunidade religiosa e tem eleitores importantes dessa comunidade em Jerusalém.

Por essa descrição é possível notar o tamanho do desconforto que a cruzada de Lieberman vem gerando nos partidos do espectro mais a direita da política israelense, pois seus eleitores reclamam que só eles contribuem com seus filhos para as fileiras de combate. Novamente, repito – a questão é delicadíssima, pois os eleitores ortodoxos adotam a linha de que nada adianta mandar para as fileiras militares jovens que estão dedicados a uma outra importantíssima fileira, a religiosa. É como dizem os católicos: “de nada adianta vestir um santo para desvestir outro”.

Esse impasse impediu que Netanyahu formasse uma coalizão para o 21º Knesset. Faltou-lhe 1 deputado para que chegasse a 61 cadeiras e Lieberman, que contava com 5, poderia ter convergido para dar mais um mandato a Bibi. Opôs força. E assim, pela primeira vez, um governo eleito não governou e a classe política voltou para a população de Israel pedindo um rearranjo de forças. Isso é inédito na história de Israel.

Obviamente que não há terceiro turno em Israel – mas de todo modo a impossibilidade de formação de um governo no 21º Knesset “devolvendo a bola” ao povo torna o efeito dessas eleições, praticamente, um grande tira-teima, semelhante a um “terceiro turno” de eleições, ou de confirmação daquilo que em Abril não gerou bons resultados políticos. E Lieberman foi a figura central desse rearranjo de forças que temos visto hoje em dia em Israel.

Demorou, mas Lieberman finalmente, há algumas semanas, tomou a decisão que era esperada desde outubro de 2018: amanheceu no colo do Kahol-Lavan (Azul e Branco), o partido da centro esquerda israelense que está em coalizão com os partidos de esquerda HaAvoda (Partido Trabalhista), o Gesher (a “Ponte”) e conta com a simpatia do Hadash (“Novo”, que de novo nada tem, sendo um partido de esquerda-extrema e radical, que faz coalizão com os partidos árabes Balad e Ta’al). Ao engrossar essa fileira e cair no colo da esquerda, Lieberman deu de bandeja uma acusação que Netanyahu lhe fazia há tempos: esquerdista.

Essa acusação tem poder no meio eleitoral israelense e a comprovação dos fatos pela atitude tomada por Lieberman torna o nome de Netanyahu quase imbatível para este 10 de setembro.

Visualizando essa vitória inevitável, a sinalização de ajuda veio até dos partidos árabes Balad e Ta’al, que tradicionalmente têm representação no Knesset mas não participam de qualquer governo, por não reconhecerem o Estado de Israel (qual seja, são dois partidos que trabalham pela extinção e destruição total do Estado de Israel legalmente e dentro do Knesset, por força da alta tolerância da Suprema Corte, o Bagatz, em face de partidos de extrema-esquerda – ambos os partidos árabes são de linha marxista radical).

Ao cogitar entrar para uma coalizão do Kahol-Lavan, que não conta com os números necessários para formar um governo, tudo, simplesmente tudo vem sendo feito para evitar que a direita se mantenha no poder em Israel.

No domingo o Bagatz, inclusive, fez um enorme favor a Netanyahu: baniu mais candidatos do polêmico partido kahanista Otzma (a “Força”), um partido radical de direita e que discursa sem o menor respeito às regras do “politicamente correto”. Enquadrados inúmeras vezes por “discurso de ódio” e “racismo”, a perseguição aos kahanistas empurra seus eleitores para o colo do Likud, que consolida uma força política com baixo fracionamento (a direta agora está menos fracionada que e esquerda em Israel), sinalizando claramente uma preferência dos eleitores pela manutenção de Netanyahu por mais um período a frente do Knesset.

Antes da migração de Lieberman para e esquerda e da decisão do Bagatz aplicando “dois pesos e duas medidas” (baniu os kahanistas, mas “passou a mão na cabeça” dos partidos árabes sob o mesmo argumento que autorizou o banimento dos candidatos do Otzma), Netanyahu estava em uma desenfreada estratégia de “bater” em Ayelet Shaked, a jovem a inteligentíssima líder do Yamina.

Shaked, ex-Ministra da Justiça, tem projeto de reforma do Judiciário e não se posicionou de forma convicta em favor de Netanyahu, assumindo a linha “é o que temos para hoje”. O revide de Netanyahu para “roubar” votos do Yamina, tática que usou nos dois últimos dias do pleito de Abril e que deixou o Yamina de fora daquele 21º Knesset (um de meus poucos erros de análise, pois vaticinei que o Yamina entraria), parecia estarmos diante de uma repetição dos últimos dias de Abril, quando, de repente, Lieberman dá a notícia de seu apoio para o Kahol-Lavan e as “melancias” se ajustam no caminhão da direita, embaralhando o da esquerda.

A menos de 15 dias do pleito de Setembro as chances de Netanyahu são elevadas.

Pesquisas dão conta de que poderá haver uma gigantesca baixa do eleitorado árabe muçulmano, já que apenas os árabes católicos são simpáticos à mensagem do Balad e do Ta’al de integrar um provável governo para ajudar Gantz a impedir Netayahu. Aos eleitores árabes muçulmanos é mais do que a tática do “tanto faz”: a direita enaltece o discurso de vitimização que os sustenta, ao passo que uma composição com a esquerda sionista israelense pode erodir para sempre esse discurso. Por isso calculo altíssima abstenção dos partidos árabes que, juntos, ficarão entre 8 a 10 cadeiras. Separados, correriam o risco de não entrar.

O Partido Verde, atualmente coligado com o Meretz e com uma dissidência do movimento trabalhista, todos fora do 21º Knesset e que se uniram para reduzir prejuízos e sobreviver politicamente. Devem, calculo, ficar com 7 cadeiras.

A união entre os Trabalhistas e o Gesher ficará no limite do threshold e fará algo entre 4 a 5 cadeiras.

Azul e Branco, a força maior da esquerda hoje liderada pela dupla Gantz e Lapid, não fará mais do que 28 cadeiras – calculo algo entre 26 e 28.

Isso faz com o que a esquerda, mesmo contando com a ajuda dos árabes, não passe de 50 cadeiras. Com a ajuda de Lieberman, que deve ficar com 7 ou 8 cadeiras, chegam no máximo a 58 cadeiras.

Para governar Israel é necessário contar com 61 cadeiras no Knesset, algo que o Likud e seus apoiadores contam hoje com eleitores de sobra.

Yamina, calculo, ficará com 12 cadeiras, o Shas terá 8 e o UTJ outras 8. Likud deve bater a marca das 34 cadeiras.

Sei que se o leitor e a leitora checarem as pesquisas, verão que estes números está distantes do que as pesquisas dizem. Tem sido assim desde 2015: as pesquisas tem errado consistentemente em margens que vão dos 10% a até 25%. Maioria dos métodos de pesquisa inclui a busca de eleitores por telefone – isso explica porque tantos erros têm ocorrido.

Em relação ao Brasil essa perspectiva tende a ser positiva. A afinidade entre os governos de Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu tem crescido e uma perspectiva de médio para longo prazo capitaneada por ambos os chefes de governo gera boas divisas para ambos os países, Brasil e Israel.

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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