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COLUNA: Os jogos Pan-Americanos que (quase) ninguém viu

XVIII Jogos Pan-Americanos de 2019. Os jogos que (quase) ninguém viu. Uma constatação, críticas e sugestões.

“O esporte aproxima e une os povos”
“Pratique esporte e viva sem drogas”
“O esporte tem a força para mudar o mundo” … blá,blá,blá..

Se esse artigo fosse escrito num papel, as tintas seriam carregadas e a grafia deixaria marcas devido à pressão feita pela mão na caneta.

Há uns dez dias, frases vinham se formando, letras se ajuntando e tomaram forma definitiva quando, num sábado, meus sogros vieram em casa. Eu assistia aos jogos do Pan e o tom mais exaltado do locutor chamou a atenção de meu sogro. Ele levantou do seu lugar e veio ver o que se tratava. Pela primeira vez na vida, ele presenciou uma final de ciclismo. 

Mesmo sem entender critérios e regras, aquele homem, aposentado e sem tv a cabo em casa, vibrou, torceu e se alegrou por efêmeros minutos. Esqueceu as dores e o peso de seus 91 anos. 

Neste exato momento eu, mentalmente, comecei a dar forma a este artigo.

A cada quatro anos acontece uma deliciosa overdose de bolas, saques, socos, golpes, raias, quadras e aparelhos.

Seja na forma de Jogos Pan Americanos, Olimpíadas, Copas, Mundiais, Campeonatos ou o seja lá o nome que se dê.

Este ano, fiz uma retrospectiva mental dos jogos que assisti até hoje e cheguei a uma triste constatação: esses slogans e toda a euforia que os narradores e comentaristas nos transmitem, no fundo, são uma farsa.

Como cantou Rita Lee: Panis et Circenses

Ganhamos medalhas e campeonatos? Sim, claro! Houveram festas, confetes, desfiles em carro aberto, os malditos rojões, alegrias, sorrisos, feriados informais, promessas feitas (eu mesmo fiz uma em 1990), muitas e variadas comemorações. 

Mas e o day after? O year after? A decade after?

Neste Pan, torci, fiquei emocionado, bati palmas sozinho na sala, gritei e cheguei às lágrimas em algumas competições, vitórias e derrotas. Assim como outros milhares — quiçá milhões — de brasileiros.

Mas podia ser melhor. Em todos os sentidos, podia ser melhor. 

Explico.

Quantos MILHÕES de brasileiros foram impedidos de assistir aos Jogos do Pan? Quantos MILHÕES de brasileiros desconhecem as modalidades esportivas em que nossos atletas participaram? Ou simplesmente, as regras básicas da grande maioria dos esportes? 

A televisão aberta somente passou a Cerimônia de Abertura (completa) horas após o acontecido. Flashes numa ou outra emissora. Retalhos. Migalhas.

É disso que MILHÕES de telespectadores vivem. De migalhas. Eles somente têm acesso aquilo que as emissoras querem. Quem não tem a possibilidade financeira de assinar uma televisão a cabo, ignora o que aconteceu nesta edição dos XVIII Jogos Pan-Americanos.

MILHÕES de brasileiros ignoram a história, a origem, os dramas pessoais de cada atleta. As dificuldades para treinar, as viagens, os meses longe da família, as lesões, os remédios, a busca incessante por um patrocínio. Somente sabem que este ou aquele ganhou ou perdeu uma medalha.

Imaginei então como seria a tarde/noite da maioria dos aposentados: obrigados a assistir novelas rocambolescas e eróticas, se amedrontando com os detalhes sórdidos e mórbidos de crimes repetidos ad nauseam. Ou engolindo receitas e mais receitas de comidas que dificilmente irão provar.

No tempo que lhe sobra, esse aposentado vai ao posto de Saúde em busca de um remédio que nem sempre comparece ao encontro ou agenda uma consulta médica torcendo e rezando para que a melhora de saúde chegue antes da data marcada pela recepcionista. 

E como ficam as pessoas com necessidades especiais? E os deficientes auditivos? Ah, esses são LITERALMENTE jogados para escanteio.

Como dar atenção a um esporte que você nem tem ideia de como funciona? Eles veem um atleta (ou time) de um lado e outro no lado oposto. Só isso!

Quando se marca ponto? Quem vence? Quando vence? Foi eliminado de vez ou volta a lutar/jogar? Qual a duração do jogo? Como funciona esse esporte?

Durante a época de Jogos, esses “esquecidos” permanecem na rotina: fazem NADA e se alimentam dos restos que lhes são atirados pelas TVs.

Um esporte “nobre”, ou que dá audiência (pela ordem: futebol, vôlei, natação, judô, algumas provas de atletismo), ah, nesses, as emissoras cortam filmes, diminuem o tamanho de programas e novelas. Como se a Bandeira e o Hino reverenciados pela conquista da medalha de ouro no Badminton pelo Ygor Coelho fossem menores do que a Bandeira e Hino entoados na conquista de medalhas por um futebol ou vôlei.

Passei uma tarde andando pelo bairro e vi televisões ligadas em bares, restaurantes, lanchonetes e botequins. Lojas e alguns comércios. 

Vi receitas culinárias, orações, fofocas e muita música (brega). Nada de jogos do Pan. Para não ser injusto, encontrei somente dois restaurantes (não populares) que compartilhavam a programação a cabo.

Estamos endeusando ídolos errados 

Segundo dados publicados pela CBF, o Brasil tem 22 mil jogadores profissionais. O Ministério do Esporte informa em seu site que existem mais de 7 mil atletas olímpicos e paraolímpicos que recebem o Bolsa Atleta. 

No futebol, glorificado até depois dos confins dos Céus, 82% dos atletas recebem até um salário mínimo/mês e somente 31% tem vínculo empregatício (dados de fev/19).

A intenção não é entrar nessa seara, pois existem melhores especialistas. 

O objetivo é mostrar que, se outras modalidades esportivas fossem apresentadas ao grande público, a probabilidade de que mais e mais crianças e jovens se interessassem por elas aumentaria muito. 

E isso tudo passa pelo crivo de um avô, de uma avó que trocariam a tragédia e os dramas da TV por comentários diferentes dos rotineiros. Compartilham-se sentimentos de honra à Pátria, ao Hino, à Bandeira. Esforços e lutas são louvados e reconhecidos. Exemplos são melhores compreendidos. 

Quatro anos de treinos, preparação, renúncias pessoais são melhores compreendidos quando se transforma (ou não) numa medalha. Isso se transmite. 

Nestes jogos não existe aquele velho chavão “não foi dessa vez, a gente tem de trabalhar mais durante a semana e melhorar no próximo jogo”.

Para os atletas dessas outras competições menos ‘santificadas’, o próximo jogo poderá ocorrer somente daqui a quatro anos…

Lembrei do Guga em Roland Garros

Quantas crianças se interessaram em praticar tênis após aquela emocionante e histórica vitória? Podem não ser atletas em competições de alto desempenho, mas se interessaram por UM ESPORTE. A atenção dessas crianças as distanciou de drogas, de delitos.

Outra estória? Há quase 19 anos atrás, um bebê sofreu uma queimadura de 3° grau na cabeça e ficou internado em estado grave. Este bebê, hoje o atleta Alison Brendom dos Santos, o Pio, só neste ano ganhou o GP Brasil, a Universíade, o Campeonato Pan Americano sub 20 e a medalha de ouro nos 400 metros com barreira no Pan !

Grande parte da população desconhece tantos e tantos heróis anônimos.

Que fique claro: não sou contra nem a favor deste ou daquele esporte. Quero assistir boas contendas seja lá quais forem.

Sou a favor de que TODOS os brasileiros tenham a mesma oportunidade de assistir, torcer e vibrar quando o País estiver disputando qualquer competição. 

ONDE O DIREITO DE IGUAIS É DESIGUAL

Duas emissoras de televisão transmitiram os jogos: a SporTV do Grupo Globo e o Grupo Record que comprou os direitos de exclusividade na transmissão do Pan-Americano para a TV aberta. 

A transmissão da abertura dos Jogos teve uma audiência de 3,5 milhões de telespectadores. (lembrando que o país tem 210 milhões de habitantes, ou seja…)

Em 29/07, a TV Record/SP, por UM MINUTO foi a líder de audiência com 11 pontos.

Segundo informes da Kantar Ibope, cada ponto equivale a 115 mil domicílios.

Todavia alguns outros dados saltam aos olhos.

Os índices de audiência da TV Brasil tiveram o maior crescimento no mês de janeiro, já sob o governo do Presidente Jair Bolsonaro.

Confira o ranking das dez emissoras mais assistidas do país em janeiro/2019

Globo14,63 pontos33,79% de share
Record7,06 pontos16,31%
SBT6,31 pontos14,56%  
Band1,50 ponto3,46%  
RedeTV0,661,53%  
TV Cultura0,441,03%
TV Brasil0,410,94%
SporTV0,400,92%  
Cartoon Network0,400,92%
Discovery Kids0,370,84%

A ascensão da TV Brasil já vem sendo percebida há tempos, e na medição de agosto de 2018, ultrapassou em dois anos os canais abertos como TV Aparecida e Rede Vida, e pagos como o Gloob, o AXN e o Megapix. 

O crescimento foi consistente no primeiro semestre de 2018: fevereiro (0,22), março (0,23), abril (0,26), maio (0,27), junho (0,29) e julho (0,31). 

Vários fatores devem ter influenciado a ascensão. Além do advento da tecnologia TV digital, houve mudanças no jornalismo e uma nova programação – com destaque às atrações infantis, como as produções nacionais “Show da Luna”, “Peixonauta” e “Detetives do Prédio Azul”. 

Veja abaixo as 20 emissoras do ranking PNT da Kantar Ibope Media, pontos e share* (%) – Medição das 7h à 0h

Share* – participação no mercado

Globo17,4 pontos37,3% de share
SBT6,95 pontos14,93%
Record6,7214,45%
Band1,362,91%
RedeTV0,641,37%
SporTV0,521,12%
Cartoon0,460,98%
Cultura0,440,95%
Discovery Kids0,430,92%
TV Brasil0,310,67%
Megapix0,300,63%
AXN0,270,58%
TNT0,250,55%
TV Aparecida0,240,51%
Gloob0,230,50%
Nickelodeon0,230,50%
Rede Vida0,230,49%
Fox0,220,47%
Discovery Channel0,220,47%
Space0,210,45

Dados e informações de Kantar Ibope Media, Ricardo Feltrin, Observatório da Televisão, O Planeta TV e RD1.

Interessante também é o fato de que, mesmo comprando a exclusividade para a televisão aberta, a Record optou por transmitir o jogo da Internacional Champion Cup, torneio amistoso preparatório para a próxima temporada europeia, entre Atlético de Madrid 2 x 1 Juventus, neste sábado passado (10), às 13h. 

No mesmo horário, acontecia a disputa da medalha de ouro no vôlei feminino. Como o time do Brasil não estava em quadra, os fãs da modalidade que assistiram aos jogos anteriores não precisavam assistir outro time jogando“.

Nas transmissões do Pan houve uma audiência significativa ? Claro que sim! Canal fechado, internet, Twitter, Facebook, enfim todas as mídias modernas estavam em campo, em quadra, nas raias e nas pistas.

E aqueles sem acesso à tv paga? E as pessoas com necessidades especiais? E os deficientes auditivos ? Ah, novamente são jogados para escanteio. Afinal de contas quem liga? Eles não têm poder aquisitivo suficiente para adquirir os produtos mostrados pelos anunciantes, ora bolas!

ATÉ QUANDO O DIREITO DOS IGUAIS SERÁ DESIGUAL ? 

Que as negociações entre promotores de eventos esportivos, mídia e anunciantes continuem, porém: 

I – Todo e qualquer evento mundial adquirido pelas emissoras a cabo e que não for transmitido em sinal aberto de televisão, será transmitido pela emissora estatal.

II – Eventos transmitidos em sinal aberto também poderão ser transmitidos pela emissora estatal a critério desta.

III – Todos os eventos transmitidos pela emissora estatal deverão ter a interpretação em linguagem de sinais (Libras).

  1. Antes do início de cada modalidade, haverá uma explicação sobre as regras e funcionamento do esporte aos telespectadores;
  2. Apresentação dos atletas brasileiros com resumo de atuação (medalhas conquistadas, torneios que participaram, etc), ranking e características de cada um dos adversários;
  3. Os intérpretes de Libras receberão treinamento especifico para conhecer as regras, linguagens típicas e funcionamento de cada modalidade para que possam exercer sua função com mais propriedade e não sejam somente “repetidores de falas”;
  4. As entrevistas também serão feitas com a interpretação em Libras

IV – Divulgação das novidades em todas as mídias sociais.

V – Interação dos Ministérios envolvidos criando um Plano de Desenvolvimento de Atletas a curto, médio e longo prazos.

Mais sugestões ? 

É óbvio que existem detalhes, nuances, negociações, estudos, planos e muitas e muitas horas onde inúmeros nobres e ilustres traseiros deverão sentar à mesa para que algo de bom aconteça.

Eu quero concluir com Lucas 8:4-15: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça“.Vejo vocês nas Olimpíadas, bye !

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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