COLUNA: Os russos chegaram (de novo) na Venezuela

Alfredo Michelena é um cidadão venezuelano e residente no País, sociólogo, economista formado em Londres, diplomata, colunista, articulista da revista Zeta e editor de OnVenezuela.


Como ex-diplomata, Alfredo Michelena tem opiniões contundentes a respeito dos caminhos trilhados pela Venezuela ainda nas mãos (e bolsos) de Nicolás Maduro.

Lendo seu artigo O Pranato que governa nosso País”, confesso que fiquei encantado com a sua facilidade em esgrimir palavras e domar as vírgulas e pontos finais.

Convidei-o a compartilhar alguns de seus escritos através da RENOVA para que possamos ter conhecimento do que realmente acontece no país vizinho, pelo ponto de vista de alguém que vive a dura realidade venezuelana.

O artigo abaixo foi um pedido meu sobre como o povo enxerga a presença russa, e o que eles estão fazendo por lá.

Vale a pena a leitura!

Os russos chegaram (de novo) na Venezuela

Os russos decidiram desafiar os Estados Unidos na América. Não mais com Cuba, mas com a Venezuela. Parece que eles pretendem não apenas visitar o país, mas “poner una pica en Flandes”¹.

Isso está aumentando o grau de confronto e os EUA advertem que “não ficarão de braços cruzados”.

Não é a primeira vez que aviões e militares russos chegam ao país, mas essa nova visita dos cossacos nas terras sul-americanas pode significar mais do que as anteriores.

A diferença é que desta vez a Venezuela tem um novo governo, o de Juan Guaidó e está sobre a mesa o artigo 187, parágrafo 11, que deixa claro que “Cabe à Assembleia Nacional autorizar o uso de missões militares venezuelanas no estrangeiro ou de estrangeiros no país “.

¹”Poner uma pica em Flandes” – Deixei no original para manter a fidelidade da frase. Creio que todos sabemos as várias ‘traduções’ que podem ser inseridas.

Outra visita

Na Venezuela chavista, não é mais uma novidade uma frota russa atravessar o Caribe e voltar à Venezuela.

Em 2008, 2013 e 2018 já estiveram por essas partes.

O contingente anterior consistia em dois bombardeiros estratégicos Tu-160, uma aeronave de transporte An-124 e uma aeronave de longo alcance Il-62, que supostamente veio realizar manobras conjuntas. Os aviões retornaram no quarto dia sob pressão dos EUA.

A secretária de Imprensa da Casa Branca, Sarah Sanders, relatou naquela ocasião: “Temos falado com representantes da Rússia e eles nos informaram que seu avião militar que pousou na Venezuela vai deixar o país na sexta-feira e retornar para a Rússia.”

Fonte: DefesaNet

Agora, em março/19, um avião de carga Antonov An-124 com 35 toneladas de material e um avião de passageiros Ilyushin Il-62 chegaram com uma centena de passageiros.

Ambos os aviões são da Força Aérea Russa.

Fonte: DefesaNet

Por que os russos?

Segundo a embaixada da Rússia, neste último voo não há nada de misterioso: “A Rússia tem vários contratos que já estão em processo de execução, contratos técnicos-militares e fazem vários voos e trazem várias coisas“.

O que é misterioso é que aviões particulares que partem de Moscou estão chegando sistematicamente à Venezuela.

Este é o caso dos dois Boeing 777 da companhia aérea Nordwind Airlines Rússia, com espaço para cerca de 400 passageiros que chegaram na Venezuela no início de dezembro e final de janeiro.

Várias explicações são dadas para esses e outros voos.

Voos de e para a Turquia, alguns passando por Moscou, estão relacionados ao transporte ilegal de ouro conforme matéria publicada em 08/março/19 > Venezuela e Turquia lucram com o “ouro de sangue”

Já se sabe que a Turquia se tornou o maior importador de ouro não monetário na Venezuela – o Banco Central da Venezuela anunciou oficialmente que está refinando o ouro na Turquia.

Para alguns, é uma maneira de tirar ouro da Venezuela e contornar as sanções dos EUA.

E, embora no caso russo também se fale sobre isso, o que preocupa é que “mercenários que realizam missões secretas para a Rússia viajaram para a Venezuela nos últimos anos para colaborar com a segurança do presidente Nicolas Maduro” conforme Agência Reuters. Fontes citadas indicam que pode haver cerca de 400 agentes do Grupo Wagner.

Fonte: DefesaNet

No final de novembro de 2017, durante a XIII Comissão Intergovernamental de Alto Nível Russo-Venezuelana, o ministro venezuelano da Defesa, gen. Vladimir Padrino, informou que a Rússia iria treinar e equipar as Forças Especiais da Venezuela.

O General Colina Reyes, chefe das Forças Especiais da Venezuela, estava no comitê de recepção dos militares russos.

Falando sobre os “contratos”, essa missão também poderia ajustar o sistema de defesa antiaérea de longo alcance, o S-300, que seria o mais avançado da América Latina e do Caribe. A Venezuela possui cinco lançadores de mísseis (S-300VM) e um sistema de radar 9s32ME. O sistema está localizado no centro do país (cidade de Calabozo), mas foi mobilizado para várias partes, incluindo Santa Elena de Uairén, fronteira com o Brasil.

As bases russas

Negada oficialmente por repetidas vezes pelo Governo, a comunidade de inteligência e o jornalismo investigativo continuam a revelar que o estabelecimento de bases russas é uma probabilidade e não uma possibilidade.

Com a chegada dos bombardeiros russos em dezembro passado, essa probabilidade foi reativada.

Neste sentido, um coronel russo declarou que tinha que incluir Venezuela nessas missões de longo alcance por isso era importante para instalar uma base na ilha venezuelana de La Orchila, assim “bombardeiros estratégicos não precisariam voltar para a Rússia para reabastecimento toda vez que fossem patrulhar as Américas“.

A agência russa de notícias TASS falou que a Rússia instalaria uma base no Caribe e que seria no Caribe venezuelano.

Algo que não parecia possível depois da crise dos mísseis cubanos, há mais de meio século, agora se torna provável.

Tanto que na Nicarágua, a primeira estação do sistema de navegação por satélite russo Glonass foi instalada em 2017.

A jornalista venezuelana Maibort Petit, apoiada por fontes e documentos obtidos militares, indica que a instalação de bases militares russas na Guiana foi inicialmente aprovada por Maduro, mas até agora a corporação militar tem resistido, pois mesmo não cumprindo a Constituição, eles sabem que essa determinação pode ser modificada pela Assembleia Nacional Constituinte que administra o regime.

As reações

Domesticamente, houve uma reviravolta política.

A questão que muitos perguntam é se esta missão militar russa é autorizada pela Assembleia Nacional, como estabelecido pela Constituição.

Se este não é o caso, estaríamos falando de uma invasão.

O Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) poderia até ser invocado, embora a Venezuela chavista tenha se retirado dele.

O pouso desses aviões tornou-se uma questão muito delicada porque o Presidente (i) Juan Guaidó é instado a aplicar o Artigo 187 da Constituição e solicitar assistência militar internacional para confrontar Maduro (como se isso fosse tão fácil quanto “soprar e fazer garrafas”).

De qualquer forma, foi proposto na Assembleia Nacional que a presença russa na Venezuela seja discutida.

A reação internacional, em particular a dos EUA ocorreu com uma conversa telefônica direta entre o chanceler dos EUA, Mike Pompeo, e o russo, Serguei Lavrov, onde Pompeo disse que “os Estados Unidos e os países da região não vão ficar de braços cruzados enquanto a Rússia exacerba tensões na Venezuela “.

O senador Marco Rubio foi além, dizendo que a presença russa na Venezuela “… é um desafio direto ao nosso interesse nacional e representa uma ameaça direta à nossa segurança nacional“.

Isso ocorre no meio de uma discussão sobre uma possível “intervenção humanitária” na Venezuela, que é, em última análise, uma ação militar para propósitos humanitários.

Vídeo > https://tvzvezda.ru/news/forces/content/201812102045-hnu2.htm/player/

Percebe-se um ‘ar de contentamento’ do repórter da TV russa, ou é impressão minha ?

Mas também um marco importante no reaparecimento da Guerra Fria.

Uma Guerra Fria sob um novo cunho.

Não é mais um confronto entre comunismo e capitalismo, mas entre democracias e ditaduras, embora envolva os mesmos atores do passado lutando no grande conselho da geopolítica mundial.

E a Venezuela é claramente uma peça importante nesse confronto.

De qualquer forma, os russos estão aumentando o custo para os EUA. e, claro, para os venezuelanos neste confronto.

Os únicos presidentes que publicamente sustentam que a opção militar está sobre a mesa são os dos Estados Unidos e da Venezuela.

Os demais disseram de uma forma ou de outra que isso não é declarado e eles a rejeitam.

Mas como o presidente do Brasil Jair Bolsonaro deixou claro ao declarar juntamente com Trump, “por razões de estratégia, a questão da intervenção não é discutida publicamente”.

Entretanto, havendo um confronto mais ativo entre a Rússia e os Estados Unidos, os países democráticos terão que tomar uma posição.

Se preferir, leia o artigo original, em espanhol clicando aqui.


Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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