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COLUNA: Prudência e Covardia

Acabo de concluir talvez um dos trabalhos mais importantes da minha vida: a tradução para o português do The Virtue of Nationalism, da autoria do Mestre Yoram Hazony. Entro agora em fase de revisão milimétrica de cada linha, cada palavra.

Este livro interrompeu outros dois projetos que estavam em andamento, e que devo retomá-los apenas no II Semestre deste ano, quando o Virtude do Nacionalismo estiver nas prateleiras.

Há surpresas muito interessantes quanto ao prefácio e ao trabalho de tradução em si que valerão a pena o sacrifício de ter postergado o Corrupção da Inteligência Jurídica e aquele outro projeto, também ousado, que chamei parcialmente de Mente Covarde.

E é sobre ele que quero falar, pois, para quem não sabe ou desconhece, o livro de Hazony trata basicamente de um valor em decadência no Brasil destes dias – a lealdade.

A lealdade é a chave para a compreensão de muitos de nossos problemas hoje – seja em política, seja em economia, seja no âmbito jurídico, seja nas artes e na cultura, enfim: não há recorte da realidade que escape do problema da lealdade.

Estudo direito societário há anos e sempre, quando me pedem dicas de tese, TCC, trabalho final e etc eu recomendo: fale sobre o art. 155 da Lei 6.404/76, enfim, sobre o dever de lealdade de todo gestor e administrador.

É um dos artigos mais importantes do mundo empresarial e que, pasmem, nunca recebeu um único trabalho acadêmico sequer até hoje.

Mea culpa, mea maxima culpa – quero expiá-la não apenas com a tradução de Hazony, mas sobretudo no segundo projeto citado, sobre a Mente Covarde.

E do que se trata, especialmente, esse projeto?

É uma análise franca, direta, ácida e desprovida de qualquer piedade da obra Mente Imprudente de Mark Lilla.

Senti a necessidade, na minha coluna desta semana, de falar um pouco deste projeto pois o cerne do pensamento de Lilla sustenta, de alguma forma, o momento atual da política brasileira, sobretudo o espectro atualmente identificado como Isentismo liberal.

O Isentismo liberal domina apenas pelo volume das vozes o atual cenário da política brasileira, pois sua meia dúzia de ideólogos (estes sim, ideológicos na acepção correta do termo) pratica diuturnamente a covardia, a deslealdade e outros esportes descritos na obra de Lilla.

Portanto: Mark Lilla é praticamente a Bíblia do Isentão (sem dúvida de acertar, já que tanto Lilla quanto a grande maioria de seus leitores navega bem no campo do ateísmo).

Lilla é acadêmico facilmente encaixável na acepção que Taleb dá ao termo IYI (Intelectual Yet Idiot) em seu último Skin in the Game.

Mente Imprudente é uma retumbante fraude lógica do início ao fim.

Nesta coluna abordarei apenas um aspecto dessa fraude lógica (dentre as dezenas que ela desfila) – trata-se do mantra isentista “você é responsável pelo que você diz”, como forma indireta de culpar alguém por desmandos de ditadores e tiranos.

A tese central de Lilla gira em torno da experiência de Platão com Dioníso de Siracusa. Essa é sua premissa. E por isso sua fraude é tão notória, pois a sua premissa é justamente trazida para o Epílogo da obra.

O ataque ao platonismo é a premissa pela qual Lilla “puxa o fio”: isso aos olhos de um leitor experiente. Aos olhos de um leitor inexperiente, a conclusão em Siracusa funciona como um “bingo de cartela cheia”. Por ai, o truque se chama “Petição de Princípio”.

Este é apenas um pedaço da fraude operada pela obra. E isso só é percebido por quem já passou pela experiência de ter de escrever um livro ou defender uma tese: nota-se instantaneamente que o autor engambela o leitor quando transforma sua premissa em epílogo e assim captura o leitor incauto na tese de que Platão, na verdade, estaria na raiz de todas as imprudências.

Ao comparar Dionísio a Lênin, Stálin, Hitler, Mussolini, Mao, Minh, Castro, Trujillo, Amim, Bokassa, Saddam Hussein, Khomeini, Ceausescu e Milosevic, partindo-se do pressuposto que 100% dos leitores não fazem a menor ideia de quem seja Dionísio II, mas tenham ao menos vaga noção de quem seja Hitler, Lilla convida o leitor a concordar com ele que Platão teria sido uma espécie de artíficie de algum Holocausto praticado por gregos (já que Dionísio e Hitler estariam no mesmo patamar), autorizando portanto que Platão seja jogado na mesma vala de Heidegger (filiado ao partido nazista e abertamente antissemita), Carl Schmitt (polêmico apoiador do nazismo de primeira hora e estudado seriamente apenas por Voegelin em seu Authoritarian State) e outros membros do Imbecil Coletivo do Século XX como Walter Benjamin, Michel Foucault e Jacques Derrida (este, famoso por sua obra A Farmácia de Platão, que, em si, serve para contrariar Lilla na largada, que equipara um autor a um de seus mais toscos críticos e polemistas).

A jogada toda da fraude está em se saber quem foi Dionísio, portanto.

Ora – Dionísio foi um tolo.

Um governante infeliz, perdido, arrogante, mau caráter e extremamente covarde. Nada mais do que isso.

Compará-lo a genocidas não é apenas uma mentira, mas uma fraude.

E dizer que Platão tenha tido qualquer responsabilidade pelas idiotices de Dionísio é parte do segundo bloco de fraudes, parte essa que esconde não apenas as circunstâncias da relação entre Platão e Dionísio mas como também e sobretudo, escamoteia de forma absoluta o conceito (grego, inclusive) de responsabilidade.

Toda responsabilidade se estabelece por um nexo de causalidade.

E na relação entre Platão e Dionísio não há qualquer nexo de causalidade entre a filosofia de Platão e as tolices de Dionísio. Essa relação em Lilla é totalmente arbitrária e fruto da sua mente imprudente. Só por essa farsa em uma relação de causa e efeito, o livro já deveria, em si, ser alvo de um sério desprezo intelectual.

Dionísio tem sua história contada por Diodoro Sículo em seu História Universal (ou, no original em grego, Bibliotheca Historica). Pergunta: Lilla faz alguma referência a Diodoro? Deixo a resposta para pesquisas do leitor e da leitora.

Em Heródoto, ao falar de fatos históricos ocorridos em Locri, Dionísio também figura narrado – algum sinal de Heródoto em Lilla?

A famosa passagem da Espada de Dâmocles na Tusculanes de Cícero também tem como personagem central Dionísio – Lilla fala algo de Cícero ou da Espada de Dâmocles? Niente.

E nesse caso, espanta mais que um amante de quadrinhos que adore a passagem “with great power comes great responsability” de Stan Lee não seja capaz de fazer essa ponte simples (parece que Lilla leu algo de Marvel…).

Dionísio é também personagem importante do Inferno de Dante: ferve no caldeirão de sangue no 12º Canto por destilar sofrimento alheio por meio da violência. Detalhe – Dionísio o fez em contextos específicos de guerra: e isso não é aqui a defesa de um tolo que agiu violentamente, mas apenas a defesa da verdade, ainda que praticada por um tolo ou, sobretudo, por um covarde.

A marca central da imagem histórica de Dionísio é a covardia.

A covardia de Dionísio não fez e nunca fará de Platão um imprudente. Nem aqui, nem Grécia, talvez na China.

A tese de Lilla não é apenas falsa, mas traiçoeira e, ela em si, filotirânica.

O grande serviço de Lilla à ciência política foi a cunhagem do termo filotirania – a quem Lilla apresenta como o “pai dos filotirânicos” o próprio Platão.

Para ele, a filotirania é aquela atração quase sexual pelo poder, que um intelectual nutre ao ver oportunidades de enganar a patuléia a fim dar nicho às suas ideias em um seio que de democrático nada teria. É muito difícil extrair um conceito objetivo e direto, pois, parte da técnica de Lilla também passa por um método confuso de construção das ideias. Em outros termos, para piorar, Lilla escreve mal à beça e usa a gramática tão bem quanto um maneta usa um papel higiênico ou um perneta usa uma bicicleta.

Nesse conceito espremido de tantas frases tortuosas em um livro tão mal escrito, vemos assim a raiz de uma espécie de “muleta de ditador” em seu conceito de filotirania, na qual Platão seria a grande origem.

A ideia é sem sombra de dúvida fuzilar a credibilidade do pensamento conservador, que tem, este sim, em Platão, a sua raiz inquestionável, a fim de emparedá-los com fascistas e comunistas que, estes juntos, tem na conta algo entre 100 a 150 milhões de cadáveres versus zero do lado conservador.

É dessa estrutura de pensamento que nasce o bordão “você é responsável pelas suas palavras” – algo que, aos ouvidos de um covarde, pode soar como: “ei, cuidado com o que você diz porque essas ideias radicais podem alimentar um tirano e isso vai entrar na sua biografia para sempre, colando-o como mais um ‘marmitão de ditador’ – é isso que você quer para a sua obra?”.

O bordão “você é responsável pelo que diz” soa sempre em tom de ameaça. Mais sutil do que a fuleira técnica de um esquerdista de chamar a todos de “fascista!”, mas, digamos, ao fim do dia, com o mesmo efeito suasório (ou “suástico”, como queiram) – eis como funciona o truque do “você é responsável pelo que diz”.

A pretensão retórica é intimidar um interlocutor que possa estar dizendo alguma “verdade inconveniente” e chamando-o de “radical”, incutir-lhe certo “temor intelectual” de ter suas ideias associadas a algum crime contra a humanidade ou coisa do gênero.

Qual seja – nada mais é do que um upgrade do politicamente correto.

A ideia e objetivo final é obviamente calar aquele que diz algo não muito macio aos ouvidos de um interlocutor incoerente.

E a marca central do isentismo é e sempre será a incoerência. Por isso usam como arma esse politicamente correto 2.0 dentro do bordão “você é responsável pelo que diz” – qual seja, a pressuposta imprudência de suas palavras pode causar sofrimento alheio, pois elas ajudam os tiranos.

Já vimos isso funcionando de um jeito menos sofisticado e essa é a razão pela qual eu precisava, não por amor, mas por dever, desenvolver uma obra mais longa para mostrar todas as “pegadinhas” contidas em Mark Lilla, ele sim, um verdadeiro filotirano que busca a censura por desabrida e sutil intimidação intelectual.

Mas, sinto muito – comigo não cola.

Lilla é o perfeito covarde pós-moderno, pois ao temer as palavras e ameaçar por meio delas, busca modulá-las por meio de intimidação baseada em conceitos falsos.

De todos eles talvez o mais falso seja mesmo o conceito que ele adota para imprudência, que só é compreendida se sabemos o que é prudência, uma das Virtudes Cardinais.

A prudência ou prudentia, ou como entendia Aristóteles, phronesis, só é compreendida se, após ler não apenas Platão, mas o próprio Aristóteles, o leitor for capaz de mergulhar na densidão de Cícero e, sobretudo, de São Tomás de Aquino.

Escrever um livro sobre imprudência sem ao menos citar em uma única nota de rodapé que seja o nome de São Tomás de Aquino é obrar em absoluta fraude.

Eis ai a parte central do que pretendo: um dia, escrever para desmascarar essa tolice retumbante chamada Mente Imprudente e que apenas revela, de fato, uma Mente Covarde – é a mente covarde das mais perigosas: é astuciosa, escorregadia, confusa, vil e até mentirosa.

Voltando a Hazony, vemos que a absoluta falta de lealdade é que é, sim, a característica de um Heidegger, ele mesmo um dos maiores e mais dedicados nazistas, negando aquilo, em vida e em público, o que seus diários revelavam ser um mantra de um psicopata antissemita.

Censura, deslealdade e uma boa dose de astúcia são os ingredientes dessa obra que faz da coragem, a fortituto (praticamente uma virtude co-irmã da prudência, que é a capacidade de antevisão), quase que algo proibido no universo isentista do politicamente correto 2.0.

Portanto, leitor; desta forma assim, leitora – se alguém vier a lhe advertir não apenas que “suas palavras machucam”, mas que “você é responsável pelo que você diz” (como forma de dizer que você pode também ser responsável pelo que outros fazem ou venham a fazer em futuro incerto e não sabido), não titubeie: mande seu interlocutor para os quintos dos Infernos para nadar no tanque de sangue fervente com Dionísio!

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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