COLUNA: Síndrome de Brasília

A “Síndrome de Estocolmo” é um fenômeno psicológico que foi detectado pela primeira vez em Estocolmo, cidade sueca, durante um assalto seguido de cárcere privado.


Em agosto de 1973, ao manter suas vítimas em cárcere privado por dias a fio, os raptores começaram a despertar em suas vítimas algum tipo de mórbida simpatia.

Essa simpatia e esse apreço pelo seu algoz seguiram inclusive durante todas as fases do processo penal.

O psicólogo Nils Bejerot cunhou o termo, fazendo referência a esse estado psicológico paradoxal em que a simpatia, o apreço e até um grau de carinho ou dependência nasce depois de uma longa exposição da(s) vítima(s) a um período prolongado de assedio moral, intimidação, ameaças e violências verbais.

Pois bem – não tenho outra forma de explicar o que ando testemunhando que não seja pela chave de Nils Bejerot.

Nestas semanas que se passaram, o Presidente Jair Bolsonaro estabeleceu com um dos estados mais democráticos do mundo (senão, talvez, “o estado mais democrático do mundo”), o Estado de Israel, laços de amizade diplomática sem precedentes na história de ambas as nações. E o que eu ouvi? Páginas e páginas de jornais, mídias, blogs, comentários, tuítes preocupados com…? o Hamas…

Não falo da maioria, mas da unanimidade dentre os que reprovaram essa aproximação Brasil-Israel: ela não seria bem vinda, pois tememos terroristas, aceitamos ameaças de embargo de comercial, assim, em plena luz do dia, como se o estabelecimento de amizade entre dois países com bases em tratados pacíficos seria uma causa para retaliações (físicas ou comerciais). Damos razão aos bullies e até com alguma certa ponta de prazer, admirando o ameaçador.

Isso não é apenas ilógico – é um grau de covardia tão exacerbado que mostra a mentalidade anã de quem defende essa “diplomacia pragmática”. Ama-se aquele que vem com o mais violento tom ameaçador: seja essa ameaça física, seja ela comercial.

A sétima maior economia do mundo age diante de economias que estão lá entre os números 88 e 89 (casos, respectivamente, de Líbia e Jordânia) como um cão amestrado, um país submisso àquele que gritar mais forte.

O maior PIB dentre os países árabes é o da Turquia, algo em torno de 40% do PIB brasileiro. A quase totalidade das exportações vão para países que, se somados os respectivos PIBs, não chegam a 60% do nosso.

Mas não – liberais gostam de números que sustentam o papo-furado deles; quando confrontados com números reais, a coisa muda de figura e aceitamos bovinamente que o Hamas diga ao Itamaraty com quem este deve estabelecer parcerias comerciais. Só falta encerrar as notas plantadas em jornais com um “sim senhor, meu caro Hamas”.

Não é só no plano externo que a Síndrome de Estocolmo atormenta os corredores da imprensa mainstream e da intelectualidade de “Sala dos Professores”: no plano interno, a passividade de “marido traído” é ainda mais espantosa.

Passamos anos nos indignando com a política do toma-lá-dá-cá (TLDC); nos horrorizamos com o Mensalão, com a troca de votos por cargos, com o Petrolão, com as alianças espúrias entre o petismo e o centrão na realpolitik mais criminosa de todos os tempos. Basta termos a oportunidade de mudar tudo isso que o choro começa: “mas é assim mesmo… é preciso negociar… sem ceder cargos não vai passar reforma alguma”.

Fomos, como cidadãos, achacados em plena luz do dia durante o mês que passou. E ao invés de defendermos o que é correto, o que vemos? Aquela gente indignada de outrora, hoje fazendo aquele discursinho do “não é bem assim”.

Gente envolvida nesse tipo de esquema defender esse tipo de coisa, eu até entendo. O que só Bejerot explica é ver gente instruída, com doutorado, pós-graduação, belas letras na estante, compactuar com esse tipo de abordagem funesta e, porque não dizer, energúmena, de emprestar o próprio imposto para financiar novamente uma casta de amigos de Brasília. Há até saudosistas dos tempos de FHC, o criador da TLDC, que no seu campo gerou coisas interessantes como o Mensalão Mineiro, Azeredo, Aécio, Richa, Paes e Paulo Preto.

Na nossa primeira oportunidade de mudança, nos compadecemos da situação de nossos algozes, que dobram a aposta em plena luz do dia e pressionamos o novo governo a ceder para os mesmos velhos caciques (alguns deles denunciados, outros até condenados).

Pedimos que os Ministros se dirijam ao Congresso para explicar as reformas e quando lá chegam, são atacados por parlamentar cuja educação caseira resultou ao patriarca coisa simples: algo em torno de uns 40 anos de cana justamente por “excessos de articulação”. Num átimo, vejo gente tuitar – “ah, mas o Ministro não sabe negociar”.

Não reputo esse compadecimento e a prostração ao errado e a uma óbvia manobra de intimidação, meramente a burrice ou a alguma espécie de covardia alimentada por doses de ingenuidade: não… – há ai um prazer mórbido de concordar com o intimidador, aquele prazer típico do cuckold.

Essa sensação de prazer gerada pela admiração de quem assedia ou intimida é a tônica central não apenas da classe política isentista – isso já é, de fato, um status actionis. As pessoas agem com esse bovinismo a fim de se manterem nessa mediocridade.

Atos de coragem são estupidamente criticados como supostos atos de insensatez, como se o cuckold que critica estaria, ele mesmo, sendo sensato ao sentar-se a mesa para “negociar” ou “articular” com quem só o prejudicou (para não dizer outra coisa…) sem pedir licença.

A patológica Síndrome de Estocolmo, hoje, alçou níveis novíssimos de confusão mental: se Bejerot fosse vivo, certamente ele iria afirmar – vejo que a Síndrome já alçou patamares nunca antes imaginados possíveis para uma mente humana; já é, certamente, uma Síndrome de Brasília.

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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