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Comitê Central de Israel autoriza campanha de candidato ultra-ortodoxo

Bechirot (o equivalente ao TSE de Israel) chancela candidaturas de Otzma (partido ortodoxo ultra-conservador).

Shalom!

Depois de explorarmos os detalhes sobre as regras do jogo e passarmos também pelos principais atores desta eleição de Israel, começo hoje a noticiar e analisar efetivamente os fatos da semana e dar ao leitor brasileiro um quadro mais geral dos últimos acontecimentos.

Ainda não foi possível fazer um título ou escrever a matéria inteira sem algumas legendas e explicações (inclusive com alguns insights históricos). Meu slihah aos que já sabem do que se trata, junto de um todá rabá pela paciência em acompanhar!

Bem, para que o leitor possa se situar, informo aqui que estas são as eleições mais diluídas da história de Israel. Nunca o voto do israelense pareceu tão disperso em meio a tantos partidos e coalizões. Essa dispersão vem gerando uma nova polarização política. Não a vejo ainda tão acirrada quanto àquela de Ben-Gurion X Begin do começo do Estado e, para ser ainda mais ousado, vejo-a ainda distante da polaridade que testemunhei quando comecei a acompanhar a política israelense, a saber, a polaridade entre Shamir X Peres. Não descartaria, portanto, um arranjo entre Gantz e Bibi se tudo seguir, assim, dessa forma, tão diluído e disperso.

Entretanto, há aqui um potencial de polaridade mais perigoso do que esses clássicos embates entre esquerda e direita israelense, entre revisionistas e trabalhistas e que se encontra ainda latente: trata-se do embate entre ultra-ortodoxos e árabes antissionistas.

No espectro político e quando atentamos aos números, esse embate não representa sequer 10% das cadeiras em disputa no Knesset. Mas se atentarmos ao fato histórico de que os partidos religiosos judaicos tendem a ser o “fiel da balança” em tempos de disputas muito acirradas, essa polarização, hoje representada pelos partidos Otzma Yehudit (Força Israelense, um partido ultraortodoxo ligada a um movimento de nome kahanista) e o Ta’al (partido árabe antissionista) pode decidir não só as eleições deste ano, como o próprio rumo da política israelense pelos próximos anos ou décadas.

Dessa disputa nasce um conflito que obriga muitos israelenses (seculares ou religiosos) a repensarem seus respectivos conceitos de sionismo e tentar dele extrair o quanto de judaísmo lhe deve ser debitado em conta. É uma discussão delicada, profunda e que se não tomada com os devidos cuidados, pode levar a erros catastróficos.

Por outro lado, o acerto conceitual pode levar o mundo a novos rumos, sobretudo no que tange à política das nações e à geopolítica global.

Mas, enfim, o que de fato aconteceu no dia 6 de março? O que é o Bechirot? O que ele decidiu? Qual o impacto dessa decisão a curto prazo no quadro das eleições de Israel? E no longo prazo, o que pode se extrair de uma análise técnica a respeito dessa decisão?

Para que qualquer análise política funcione, é necessário que atentemos, livres de qualquer carga emotiva, para os esquemas de poder ou para a chamada cratologia que sustenta cada polo desse poder. É o que tentarei fazer aqui.

Antes, vamos aos fatos: o Bechirot é o Comitê Central Eleitoral de Israel – trata-se de uma quasae-agência independente e ligada ao Knesset. Não chega a ser um comitê permanente pois ele se instala sob demanda de novas eleições e se dissolve ao fim do pleito.

Assim, esse comitê tem por função organizar as eleições para a formação do Knesset seguinte. Ele é composto por 35 membros, 34 dos quais são indicados pelos partidos com assento no Knesset. A indicação é proporcional ao número de assentos, portanto, no Bechirot para o 21º Knesset (leia-se, o próximo), os membros do Likud contam com 8 cadeiras no Bechirot. O órgão é presidido por um Juiz da Suprema Corte de Israel. O Comitê deste ano vem sendo presidido pelo Juiz Hanan Melcer, que tem histórico na advocacia de mercado financeiro e foi, por longo tempo, importante advogado na esquerda trabalhista de Shimon Peres.

O Bechirot é, portanto, um órgão misto e diferentemente do nosso TSE, ele não tem funções apenas judiciais – é um órgão que conta com membros do Poder Legislativo bem como do Poder Judiciário. Suas funções são reguladas pela Lei Básica do Knesset, de 1958 e que por lá tem certo status constitucional.

O fato do Bechirot ser composto apenas por partidos com assento no Knesset retira do Kahol-Lavan (Azul-e-Branco), o partido líder nas pesquisas, qualquer representatividade neste Bechirot.

E esse detalhe fez diferença na decisão de 6 de março, que assegurou ao Otzma a plena participação nestas eleições.

Nessa data, o Bechirot decidiu uma demanda proposta pelo Procurador Geral de Israel, Avihai Manderblit, para impedir um dos membros do Otzma, a saber, Michael Ben-Ari, judeu de origem iraniana/sefaradí, de concorrer às eleições. Ben-Ari é discípulo e tem fortes ligações com o falecido e polêmico Rabino Meir Kahane, fundador de um partido já extinto de nome Kach (“Assim”, no sentido de “tem que ser desse jeito” ou “é a minha ideia, pronto, acabou”).

Michael Ben-Ari

O Kach era um partido com ligações às ideias mais radicais do Irgun, de onde tirou o nome. Kahane, antes de morrer assassinado em 1990, deixou inúmeras polêmicas por conta de sua leitura radical das escrituras sagradas e da obra de importantíssimos filósofos como Maimônides. Em meio a tanta polêmica, Kahane foi acusado inúmeras vezes de racismo, tendo a sua carreira política interrompida por mais de uma vez.

Suas ideias compõem uma doutrina hoje conhecida como kahanismo. O kahanismo faz uma leitura ultrarradical do sionismo a ponto, por exemplo, de ver nos casamentos entre judeus e não-judeus uma causa para retirada da cidadania israelense. Sua visão de “direitos de cidadania” recebe leitura ultraortodoxa.

Após sua morte suas ideias se mantiveram em meio a um grupo bastante radical, que foi, ao fim, afastado da política por uma decisão do Berichot em 1994, de banir para sempre o Kach e os movimentos kahanistas da vida política de Israel, com base na lei antiterrorista. O kahanismo foi assim reconhecido pelo establishment israelense como um grupo terrorista, contaminando com a mesma classificação o partido que lhe dava abrigo, o Kach. A causa principal reside em diversas declarações em apoio a atos terroristas e de contra-ataque, bem na linha do velho Irgun. Começava ai uma história de ostracismo político do kahanismo, que seguiu discretamente em meios mais ortodoxos.

Dispersos na sociedade, alguns voltaram para a política associando-se a partidos ultraortodoxos. Um deles foi Michael Ben-Ari, que durante os anos 2000, meteu-se em polêmicas acentuadas contra os católicos, chegando a escrever cartas pouco amigáveis para então Papa Bento XVI, cobrando da Igreja um posicionamento mais incisivo sobre o Holocausto ou ainda fazendo manifestações públicas pouco amistosas para evangélicos, com críticas pesadas a textos do Novo Testamento.

Mas suas polêmicas mais pesadas sempre foram em relação aos palestinos, aos muçulmanos e aos árabes, críticas essas que lhe rendem a fama nada lisonjeira de “racista”.

Embora tenha suavizado um pouco o vocabulário tentando se mostrar como um “kahanista reformado” ou um “neohakanista”, logo após ter fundado o seu partido em 2012, o Otzma Yehudit (“Força” ou “Tenacidade Judaica”), Ben-Ari seguia de certa forma uma figura tóxica, até a jogada política de Netanyahu, que fez arriscadíssima aposta neste pequeno grupo de ultrarradicais religiosos.

Ressalte-se aqui que Ben-Ari não é nenhum ignorante – é doutor em História e um homem de profunda cultura com um grau elevadíssimo de incorreção política: Ben-Ari faz a incorreção política de Trump parecer brincadeira de 5ª série…

Foi exatamente essa figura que o Bechirot teve que decidir se podia ou não fazer parte destas eleições, o que significa praticamente coloca-lo no Knesset, pois, sendo ele o nr. 1 da lista do Otzma no bloco formado com o Likud, sua presença está matematicamente garantida ao lado de Ben-Gvir, independentemente de quem venha a vencer estas eleições.

Essa figura tóxica de discursos polêmicos tem, todavia, dois assuntos que, suspeito, atraíram Netanyahu – Ben-Ari é um forte crítico da esquerda e dos partidos árabes, que são antissionistas. Assim, ao antissionismo do Ta’al, surgirá um discurso ultrassionista (qual seja, de um sionismo que apenas reconhece nos judeus religiosos o direito de viver em Israel como cidadão israelense).

Sobre o Ta’al, lembramos aqui a interessante decisão do Bechirot de 2009 que resolveu banir o Ta’al por conta de seu discurso antissionista, visto como contrário aos interesses do Estado em que atuam – logicamente, é de fato uma estupidez dar assento no legislativo de um estado a quem tem como plataforma política a destruição desse mesmo estado onde lhe cabe legislar. Essa decisão do Bechirot foi revertida de forma esmagadora na Suprema Corte de Israel meses depois e, graças ao Judiciário israelense, o Ta’al segue com o seu discurso antissionista, praticamente sem oposição a sua pauta radical. Isso até surgir essa decisão de 6 de março de 2019…

Por 16 votos contra 15, o Bechirot decidiu favoravelmente a Ben-Ari, já que os demais membros como Ben-Gvir não estavam sob o alvo de Manderblit.

Conforme falei na minha conta no twitter em @evandrofpontes em frutuoso debate com Gabril Paciornik do ótimo Conexão Israel, essa decisão é uma derrota terrível para a esquerda, pois ela consolida o eleitorado religioso em torno do Likud e praticamente joga a extrema-esquerda (como o Hadash, acrônimo do partido Hazit, ou Frente Democrática para a Paz e Igualdade e que ironicamente é também uma palavra com significado próprio, a saber “Novo”) para o lado do Kahol-Lavan de Gantz. Se Ben-Ari pode parecer tóxico para Bibi, o Ta’al é muito mais para Gantz: eis a cratologia que tenho enxergado em desfavor de Gantz nesse jogo de forças negativas.

As pesquisas indicam hoje que o Kahol-Lavan lidera por uma margem muito pequena as eleições (ostenta entre 32 a 36 cadeiras, dependendo dos institutos de pesquisa, contra 29-30 do Likud, entre as 120) e essa margem pequena ainda é muito distante dos 61 assentos necessários para dar a Gantz a cadeira de Primeiro-Ministro. Nesse quadro, se somarmos os partidos de direita com os ortodoxos àquele número do próprio Likud, este parece estar mais próximo de levar Bibi, mais uma vez, para a cadeira de Primeiro-Ministro. A leitura não é de quem tem mais votos, mas sim de quem tem ao seu lado (ou jogado para o seu campo político) figuras menos “queimadoras de filme” do que seus adversários: Bibi agarrou-se a Ben-Ari e a Ben-Gvir – enfim, fez como o fazem os grandes times nos drafts de formação de equipes ao escolher o “não tão pior” dentre os piores. Quem conhece teoria dos jogos sabe bem como essa tática funciona. Bibi força Gantz a se mexer e este não tem muito tempo para alterar o quadro das pesquisas a seu favor. E o próprio Gantz parece já estar reconhecendo isso ao fazer declarações esta semana de que importa mais a consolidação do Kahol-Lavan como partido do que propriamente emplacar alguma coalizão. Um de seus principais apoiadores, Lapid, praticamente sumiu da mídia desde que entregou os votos do Yesh Atid, seu partido, para Gantz.

Nas últimas semanas as pesquisas indicam que há uma delicada estabilidade: ninguém cresce, ninguém cai, ninguém tira voto de ninguém, exceto por um detalhe – o tradicionalíssimo partido Beiteinu, de onde saiu Bennet para formar o seu Yamin Hadash ou “Nova Direita”, tem perdido votos na mesma proporção em que a coligação de Otzma vem recebendo. Pode-se notar, portanto, uma migração de eleitores do Beiteinu (partido religioso mais tradicional de Israel) para a frente que conta com Otzma-UTJ.

Beiteinu está hoje perigosamente oscilando para a margem abaixo dos 3.25%, deixando em disputa ainda algo em torno de 2% de votos válidos que podem migrar para o bloco do Likud, isso se Beiteinu não desistir em favor dos ortodoxos.

Partidos pequenos como Gesher (Ponte ou Pontes) e Zehut vêm perdendo força, sendo aquele uma má notícia para Gantz, este, para Netanyahu.

O que ainda pode mudar? Ao que parece, até então, muito pouco.

O ímpeto de Manderblit de denunciar Bibi pelos casos de corrupção (hoje, são os casos 1000, 2000 e 4000 – falo deles na semana que vem se não tivermos nada impactante tendo ocorrido), tende a arrefecer, conforme venho falando há meses e a capacidade de Manderblit de interferir nas eleições vem diminuindo. Ao focar em Ben-Ari e permitir Ben-Gvir, tendo sido derrotado (ainda que por estreita margem), mostra que Manderblit poderá usar da mesma técnica – tenderá a desistir dos casos 1000 e 2000, focando no 4000, onde, tenho apostado, perderá por dificuldades em provar o nexo de causalidade entre a vantagem supostamente auferida por terceiro em troca da vantagem obtida por Bibi em termos de imagem positiva. Já vi essa história em outras praças centenas de vezes e casos desse tipo dão em nada.

Voltando ao pleito, vejo nessas eleições uma perda da força do centro, do isentismo e dos partidos moderados. Com o resultado a se consolidar, um 21º Knesset de curta vida poderá se formar com Bibi novamente sentando na cadeira de Primeiro Ministro, apoiado por um gabinete conservador, nacionalista e profundamente divisionista.

Israel estará mais do que nunca muito dividido depois destas eleições e, aposto eu, Otzma e Ben-Avi poderão reunificar Israel se apostarem na pauta mais ousada de todas – a retomada do Haram el-Sharif para a jurisdição exclusiva israelense, forçando à construção de uma sinagoga nesse mesmo espaço, fazendo, assim, qualquer discussão de enfrentamento ao Hamas parecer circunstancial.

De que lado você ficaria, judeu ou não, diante de uma proposta como essa?

As vezes, a mão que une contendores sai de braços impensáveis.

Apertem os cintos, abril de 2019 está chegando.

Lehitra’ot

e…

Shabat Shalom!

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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