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Eleições em Israel – Balanço Geral da Cobertura da RENOVA


Boker Tov! Shalom!

Aguardei até a madrugada desta 5ª feira, quando o Bechirot fechou os números finais de apuração, para fazer esta coluna de despedida da nossa cobertura das IsraElex19.

Primeiramente, foi uma honra fazer esse trabalho e saímos destas eleições muito satisfeitos com o nosso desempenho e o compromisso de levar ao nosso público informação da mais alta qualidade.

Foi um esforço que recompensou: nenhum outro veículo de fora de Israel fez uma cobertura como a da RENOVA, muito menos com a nossa seriedade e a nossa imparcialidade, que permitiram um grau de acerto bastante elevado.

Boa parte de nossas análises acabaram se concretizando. E isso é uma revolução não só no jornalismo brasileiro, mas também no jornalismo mundial: a história há de fazer justiça reconhecendo que a RENOVA esteve muito à frente de grandes veículos da imprensa mundial neste momento histórico de tantas mudança no mundo.

Desde o início de nossa cobertura foram raros os momentos de surpresa.

Ao final, tivemos algumas surpresas, mas o núcleo de nossas leituras se materializou nas urnas contra todas as análises e inclusive contra todas as pesquisas de grandes institutos israelenses.

Desafiamos a leitura que o Midgam vinha fazendo das intenções de voto e, por método próprio, apresentamos números completamente dissonantes daqueles apresentados por tais institutos de pesquisa. E ao final, foram os nossos números que mais se aproximaram da realidade.

Vejam abaixo o quadro comparativo (por número de cadeiras no Knesset):

PartidoMidgam (para o Channel 12)Renova MídiaResultado Final
Likud (D)263436
Kahol Lavan (E)303035
HaAvoda (Trabalhista) (E)1046
Meretz (E)545
Ta’al/Hadash (A/EE)766
Balad/Ra’am (A/EE)44
Gesher (C)
Kulanu (CD)54
Beiteinu (D)55
Zehut (L)54
HaYamin HaHadash (D)67
Bayit/Tkuma/Otzma (ED)5105
Shas (O)568
United Torah Judaism (O)747

Resultado Final: Bloco da Direita – Midgam: 64; Renova: 65; Resultado Final: 65

Legenda:

D – direita

E – esquerda

A – árabe

EE – extrema-esquerda

C – centro

CD – centro-direita

L – libertário

ED – extrema-direita

O – ortodoxo

Primeiro, chamo atenção do leitor e da leitora para o resultado final, em que cravamos o número que se materializou na realidade. Boa parte desses números foram apresentados nas colunas anteriores.

Apostávamos nas 65 cadeiras, exceto na semana anterior a votação em que subimos as perspectivas do bloco da direita para 68 cadeiras. Prevaleceu, ao final, o número mantido ao longo de toda campanha.

Previmos a saída do Gesher, no que estávamos alinhados com a percepção dos institutos de pesquisa e acertamos o número da cadeiras do Ta’al. No campo extra-urna, previmos a saída de Ben-Ari, mas não imaginávamos que o Bagatz colocaria o Balad novamente na disputa.

O Midgam acertou o número de cadeiras do Meretz, do Balad, do Beiteinu, do União da Direita e do UTJ.

Estivemos próximo (erro por 1) do Meretz enquanto que o Midgam esteve próximo do Kulanu e do Ta’al.

Os erros mais gritantes aconteceram, contudo, nos três maiores partidos, a saber, Likud, Kahol/Lavan e HaAvoda. E é exatamente no topo do processo eleitoral que análise acabou fazendo a diferença.

Em relação ao Likud o Midgam errou por 10 cadeiras, nós erramos por 2; ao Kahol/Lavan ambos erraram por 5 e em relação ao HaAvoda, Midgam errou por 4, nós erramos por 2.

O que se nota é que os institutos de pesquisa (neste caso, estamos olhando para o trabalho do mais importante dos institutos, o Midgam, em sua pesquisa para o Canal 12) conseguiram capturar com maior precisão o comportamento do eleitorado nos partidos pequenos e com público bem definido, mas erraram de forma profunda na captura da disputa principal entre Likud e Kahol/Lavan, onde estivemos muito próximos do acerto e dos números que se concretizaram na realidade.

Nossa leitura foi mais distante dos resultados das urnas nos pequenos partidos, mas ainda assim bastante próxima da realidade onde a disputa estava acontecendo. Foi essa diferença que nos permitiu ter uma leitura mais fiel do jogo político e nos permitiu, com muita tranquilidade, apostar, desde tenro momento da disputa, que o Likud superaria o Kahol/Lavan fosse na disputa direta, fosse no confronto entre blocos.

Essa incapacidade de leitura de compreender o que estava ocorrendo na disputa principal contaminou complemente a habilidade de análise de muitos jornalistas e cientistas políticos consagrados. Uma pena.

Para a surpresa de todos, o insucesso do Zehut e do Yamin Hadash foi um fator decisivo nestas eleições. O Yamin Hadash de Bennett ficou de fora por uma margem muito pequena de votos (menos de 1000 votos separaram o Yamin Hadash do Knesset).

Para a minha surpresa (e, confesso, alívio) o bloco kahanista não descolou dos demais como eu havia calculado. Eu imaginava que a saída forçada de Ben-Ari (que para mim estava marcada desde que Bibi havia anunciado a aliança com ele) destravaria a timidez de alguns eleitores mais ferrenhamente conservadores para esse neokahanismo. Isso não ocorreu. Indiretamente, o Shas foi beneficiado.

Em contrapartida, a completa desidratação do HaAvoda estava prevista em nossas contas (muito por conta da vergonhosa campanha de Gabbay), algo que pegou de surpresa toda a imprensa e todos os institutos de pesquisa. Neste pormenor, a sensação de uma possível vitória do bloco de centro esquerda, creditada a esse absurdo inchaço dos números do HaAvoda (em contrapartida a uma captura atrofiada do Likud), dava a impressão de disputa acirrada entre blocos, quando, segundo previsto por nós, isso jamais ocorreu, justamente por conta do aspecto “tóxico” dos partidos árabes alinhados com a esquerda e com a extrema-esquerda (afastando assim o eleitorado acima dos 35 anos).

O boicote árabe, que recuou em parte nos últimos minutos, era o que nos sinalizava que o Balad poderia não superar o threshold e o Meretz poderia ficar no limite. O voto, ao final, dos militares, trouxe mais uma cadeira para o Meretz enquanto que uma corrida árabe no fim do dia garantiu o Balad por uma quantidade bem pequena de votos (algo em torno de 7000 votos).

Jornalistas que analisam a distância costumam olhar mais para os institutos de pesquisa e raramente acompanham os discursos e debates entre candidatos (alguns, pela barreira da língua, mas a maioria por barreira intelectual ou preguiça mesmo) e acabam opinando sem atentar aos fatos e aos detalhes.

Nosso trabalho foi diferente, pois acompanhamos os fatos de perto, as campanhas e também a evolução das pesquisas (que já indicavam certa distância não só dos fatos, mas sobretudo do xadrez político).

Netanyahu soube manobrar essa campanha de forma magistral e esgrimou com Gantz e Lapid com maestria incomum. Bibi soube capturar o voto e a confiança do eleitorado israelense e soube usar o “silent period” das pesquisas a seu favor de forma brilhante.

Bennett e Shaked, do Nova Direita (Yamin Hadash) souberam fazer uma campanha inteligente, mas que não se reverteu em votos e Liebermann, do Beiteinu fez campanha tímida, o que até me pareceu que, dada a força de seus dissidentes Bennett e Shaked, o Beiteinu ficaria de fora.

Esse é um detalhe destas eleições muito imporante para entender qual foi, na verdade, a grande vitória de Netanyahu e que só notei isso ao final das eleições e graças a interações inteligentes de seguidores como Gabriel Paciornik (@gabpac) e leitura de analistas políticos de peso como Lahav Hakov (@LavahHarkov).

Netanyahu não venceu Gantz, nem Lapid. Estes, Netanyahu sabia desde o início que iria atropelar politicamente. Isso também nunca foi uma dúvida para nós. Era óbvio que o discurso pastoso de Gantz não iria agradar o eleitorado israelense, pois Gantz oscilou demais em seu pragmatismo, flertou com parte da direita (tóxica para um eleitorado tradicional ligado ao movimento trabalhista), ora com parte da esquerda e desde o início com uma insuperável dificuldade de fechar as próprias contas sem embarcar em sua campanha os partidos árabes e de extrema-esquerda antissionista. Gantz nunca teve a mínima chance – se nós sabíamos disso, Netanyahu então, mais ainda.

A disputa, na verdade, sempre foi contra Bennett e Liebermann. E isso nem sempre esteve claro para mim.

Netanyahu, nestas eleições, congelou e anulou de forma eficiente as iniciativas e investidas de dois críticos internos muito ácidos e que integravam o 20º Knesset e seu governo anterior.

As eleições deveriam ocorrer em outubro e só foram antecipadas pois Liebermann, junto com Bennett e Shaked, todos naquela época integrando o mesmo partido (o Yisrael Beiteinu, ou Nossa Casa [é] Israel), romperam com Netanyahu saindo da coalizão disparando críticas a Bibi. Essa ruptura desfez a maioria, exigindo assim que as eleições fossem antecipadas.

Netanyahu não perdoou e ao forçar eleições antecipadas, jogou em silêncio em relação a Bennett, Shaked e Liebermann a campanha toda e fazendo o que era dele esperado: atacou com vigor Gantz e Lapid e deixou para o período de silêncio a sua cartada final – desidratar na reta final a dissidência do Beiteinu fundada por Bennett e Shaked, o Yamin Hadash.

Com a dissolução do 20º Knesset e o fim da coalizão, a brilhante Shaked, Ministra da Justiça que ao lado de Bennett fundaram o próprio partido sob o nome de Nova Direita (Yamin Hadash), empreendeu forte discurso contra a Suprema Corte de Israel. Shaked propos ampla reforma do Judiciário e quase faz destas eleições uma espécie de referendo contra a Suprema Corte de Israel. Esta, por sua vez, interferiu neste pleito ao devolver o Balad para o jogo e bloquear Ben-Ari, o neokahanista boquirroto, por “incitação ao racismo” (seja lá o que isso possa significar em Israel…). Tudo parecia convergir para uma campanha sobre a importância de se rever o ativismo judicial israelense, um dos mais militantes do mundo. Antes da abertura das urnas, o jornal Jerusalem Post chegou a escrever um editorial intitulado It’s the Judiciary, Stupid! em provocação ao Haaretz (espécie de Le Monde israelense) que tem a mania de fazer editoriais com o lema clintoniano do “It’s not the X, stupid”.

Bibi não demorou a se apoderar do discurso no minuto seguindo de sua vitória e pode apontar o jovem Bezalel Smotrich para se implementar parte das propostas de Shaked, mas em favor de Bibi. Em política, a melhor maneira de tornar um adversário estéril e ocupar o espaço de quem teve a ideia inicialmente é executando as suas boas ideias – vide o que aconteceu no Brasil com o Plano Real…

Com o resultado obtido e Bennett expelido pelas urnas por uma margem mínima, Netanyahu não apenas venceu seus adversários, mas conduziu o povo de Israel a calar seus críticos internos, sem nunca ter dirigido uma palavra negativa contra aqueles que romperam com ele e foram a causa direta destas eleições antecipadas. Isso pode ser perigoso, no longo prazo, se novos críticos internos não surgirem ao longo do novo governo. Crítico interno, entenda-se, não é o “isentão” e nem tampouco o “fogo amigo”…

Liebermann, que antes possuia 5 cadeiras sendo 2 ocupadas por Bennet e Shaked (duas estrelas em ascenção) volta ao Knesset para as mesmas 5 cadeiras, mas doravante ocupadas por políticos menos expressivos e promissores.

Entre os promissores, a tarefa pode acabar no colo do jovem e polêmico Bezalel Smotrich, do Tkuma, provável Ministro da Justiça deste novo governo e que integrava a coalizão com os neokahanistas do Otzma, dos quais nenhum entrou no Knesset.

Essa vitória consolida o poder de Bibi de forma única na história de Israel. Nunca houve alguém com tanto poder, nem mesmo Ben-Gurion.

Bibi é o grande vitorioso e da derrota de Bennett, que arriscou alto contra os ortodoxos ao criar uma dissidência secular do Beiteinu e de quebra enfraquecer Liebermann, despontou o Shas, partido dos ortodoxos sefardís, cujo poder político cresceu de forma surpeendente nestas eleições.

Segurar Bibi onde possa eventualmente errar e neutralizar parte de seu poder, doravante muito concentrado, será tarefa, desta vez, para os religiosos do Shas e do Tkuma; Shas que, diga-se de passagem, teve lá suas rusgas com Bennett em passado recente. Temos ai a fome encontrando a vontade de comer.

A figura também de destaque nestas eleições coube ao Procurador Geral de Israel, Avichai Mandelblit, que se por um lado teve êxito em banir Ben-Ari (bem como na tentativa de impedir o Balad de concorrer), deixou de denunciar Netanyahu nos quatro casos em que estaria envolvido, apesar das recomendações da polícia favoráveis ao processamento de Bibi.

São casos que cheguei a comentar durante a cobertura, mas na medida em que foi ficando mais claro que Mandelblit não denunciaria, fui diferindo essa discussão para um segundo momento.

Calculo que o primeiro “escândalo” do 5º governo Netanyahu (o 4º seguido) sairá da pena de Mandelblit: e na próxima semana eu conto como isso vai se dar e se apoio de partidos como o Shas serão mantidos em caso de indiciamento. Até lá!

Shabat Shalom
e…,
Le’hitra’ot!

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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