Eleições em Israel – debate se acirra, mas resultados se consolidam


Boker Tov!

Esta foi uma semana em que novamente os fatores externos influíram no desempenho que os partidos poderão ter nas urnas.

Mais uma vez, os desígnios da eleição não serão definidos por fatores políticos que saiam de dentro para fora das eleições, mas sim o inverso – a influência de fora para dentro do cenário político tem enorme potencial definidor.

Os ataques do Hamas em Gaza, pari passu com o reconhecimento da soberania israelense sobre a região de Golan, ao lado de um reconhecimento da Romênia para Jerusalém como capital de Israel tiveram pouca atenção nas páginas dos jornais israelenses que cobrem as #IsraElex19, mas calculo que esses fatores pesarão demais na escolha do boleto de voto (o petek hatsbaah).

Esta semana o principal concorrente de Netanyahu, Benny Gantz, não teve bom desempenho em entrevistas. Corretamente preocupado em não interferir na estratégia militar usada pelo governo para responder aos ataques do Hamas, Gantz acabou passando instabilidade política, embora ele tenha sido até muito pouco tempo, ele mesmo, o chefe das Israeli Defense Forces, o IDF.

Esse mau desempenho político explicado por seu ainda vivo instinto militar, serviu como combustível para que o Likud e o Yamin Hadash (Nova Direita, de Naftali Bennet e Ayelet Shaked) aumentassem os ataques contra o Kahol-Lavan, partido de Benny Gantz e Yair Lapid, a dupla de concorrentes que se mantiveram na centro-esquerda nestas #IsraElex19.

Esses fatores jogam as #IsraElex19 para o campo da segurança nacional e nesse xadrez, a aproximação (ainda que forçada) do Kahol-Lavan, o partido de Gantz, com os partidos de esquerda e os partidos árabes, confirma minha previsão feita nesta coluna que a campanha de Gantz corria grande risco de entoxicar-se por força da aproximação, digamos “geométrica”, com Ta’al e Balad (sobretudo este).

Isso amplia proporcionalmente o número de eleitores dispostos a ir as urnas para impedir, pelo voto, que o Balad obtenha cadeiras e que Gantz consolide uma maioria no Knesset.

Não se trata, portanto, de uma migração de votos – o que tenho lido nos últimos resultados das pesquisas é a possibilidade de um incremento de votos válidos para o Likud, diluindo assim partidos como Balad, Gesher na esquerda e na linha antissionista, e até mesmo o tradicionalíssimo Beiteinu à direita.

Essa diluição põe esses partidos abaixo do threshold de 3.25% e faz com que a disputa cabeça-a-cabeça entre Likud e Kahol-Lavan se desequilibre em favor do Likud.

A última peça do tabuleiro que pode aparecer, reitero, é Manderblit, o Procurador Geral de Israel, que está com os processos de investigação de Netanyahu em mãos.

Estamos a menos de 10 dias da data final de escolha, o 9 de abril. Entre 1º e 4 de abril, Benjamin Netanyahu estará com Jair Bolsonaro e poderá receber mais uma sinalização de reconhecimento da capital Jerusalém com promessas futuras de instalação da Embaixada brasileira por lá.

O clima político não anda favorável para Jair Bolsonaro, mas os acertos com Chile e EUA poderão forçá-lo a beneficiar Netanyahu com essa manifestação positiva em prol da embaixada brasileira em Jerusalém. A leitura de sua política externa, endossada por nomes como Matteo Salvini, passa ao largo das minúcias esquizofrênicas que a imprensa brasileira vem narrando ao seu bel-interesse. No campo da política externa Bolsonaro é um vencedor e pode exercer um fator de desequilíbrio a favor de Netanyahu, aos olhos de um israelense médio que não conhece o Brasil e não fala português.

Noutro campo, saindo da política externa para a Justiça, se alguma denúncia houver contra Bibi, nesta altura do jogo, seu efeito há de ser mínimo, pois, conforme venho apostando, Manderblit tentará concentrar-se no Caso 4000, deixando os demais pelo caminho (no máximo, apresentará denúncia conjunta nos Casos 1000 e 4000). O caso 4000 é o que Manderblit deve mais apostar fichas, mas sob o ponto de vista jurídico é um caso dificílimo de provar o nexo de causalidade, elemento essencial em qualquer sistema jurídico para a formação da culpa (no direito penal o estudo do nexo migra, ao meu ver, para o campo da análise da culpabilidade, tarefa, nesse Caso 4000, muito espinhosa para Manderblit).

Com o andar do fatos e tendo Shaked transformado habilmente estas #IsraElex19 em uma espécie de referendo da Suprema Corte de Israel, aliado agora também a um referendo sobre a segurança do Estado de Israel e, quiçá, sobre um novo conceito de sionismo que pode surgir ao longo dos próximos anos, calculo que o Likud deverá conquistar entre 30 a 34 cadeiras e o Kahol-Lavan não passará de 30 (meu número mágico é 28).

O Zehut deverá estrear no Knesset apoiando Netanyahu (calculo 4 cadeiras), enquanto o partido de Shaked e Bennet, o Yamin Hadash (Nova Direita) deverá surpreender (calculo 7 cadeiras). Partidos ortodoxos devem crescer, com exceção do Shas (da comunidade sefaradí), que deverá perder cadeiras e chegar ao final das eleições com algo em torno de 6 assentos no Knesset. A União da Direita (que inclui o polêmico Otzma), deverá ser a grande vencedora destas eleiçoes – calculo que chegará próxima de 10 cadeiras, ponto em que as pesquisas podem falhar, pois fazem aposta menor do que a leitura que venho fazendo. Neste caso, acredito, prevelecerá a famosa “margem de erro”.

Na esquerda, o grande perdedor deve ser o HaAvoda, o Partido Trabalhista Israelense, guardião do peresismo ao lado do Meretez (uma dissidência bem ao estilo “Marina Silva” do HaAvoda). Calculo que o HaAvoda irá desidratar e ficar possivelmente menor que a polêmica União da Direita, ficando o Meretz no limite dos 3.25% com 4 cadeiras. O crescimento ocorrerá no Ta’al/Hadash, que recebeu por migração todos os votos oriundos do Balad. Calculo que haverá apenas um bloco árabe alidado à esquerda (o tal Hadash, que significa “Partido Novo” em hebraico).

Notem que essa configuração tende a estimular o conflito árabe-sionista, trazendo-o definitivamente para dentro Knesset. Isso terá forte impacto nas políticas israelenses sobre os “territórios ocupados” e à luz da última Lei Básica de 2018, reformulará o conceito de sionismo pelas próximas décadas, enterrando de vez o sionismo dual State de Peres e Rabin e trazendo de volta aquele mesmo sionismo de Golda Meir – já há dois estados: um a leste do Rio Jordão, outro a oeste. Teoricamente, é o que pugna Yoram Hazony em seu The Virtue of Nationalism ao citar passagens do Devarim da Torah (qual seja, Deuteronômio, 2,4-6; 9 e 19).

Tais resultados, caso se confirmem, forçará o presidente Rivlin a entregar pela quarta vez consecutiva o poder a Benjamin Netanyahu para formar o gabinete de Ministros do Knesset em torno do Likud, União da Direita, Nova Direita, Zehut, Shas e a União Judaica pela Torah (este, um bloco formado por dois partidos ultra ortodoxos, o Agudat e o Degel) e, desta forma, abrir caminho para esse novo e ao mesmo tempo tão antigo sionismo, interrompido por Peres, Rabin e a turma de Oslo.

Calculo que esse bloco será formado graças a capacidade de reunir entre 61 a 65 cadeiras no Knesset.

E com o tempo, não se espantem se o Kahol-Lavan migrar para esse bloco, se cair-lhes a ficha de que Golda Meir tinha razão.

Lehitrah’ot
e
Shabbat Shalom!

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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