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FHC volta a dizer que PSDB pode apoiar PT no segundo turno

Tarciso Morais
Tarciso Morais
Fundador e editor-chefe da RENOVA Mídia.

O jornalista Bernardo Mello Franco publicou uma entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) em sua coluna no jornal O Globo.


Para FHC, o Brasil se aproxima da eleição mergulhado num clima de ódio e de medo. O ex-presidente se diz assustado com a possibilidade de Jair Bolsonaro (PSL) chegar ao segundo turno. Neste caso, ele admite a hipótese de um acordo entre PSDB e PT, algo inédito desde 1989, quando os dois partidos se uniram contra Fernando Collor.

Renova Mídia reproduz a entrevista logo abaixo. Você pode conferir a matéria completa no site do jornal O Globo.

 

  • Desde 1989, um candidato do PSDB não vai tão mal nas pesquisas. Por que Geraldo Alckmin não decola?

A mídia presta atenção em tudo o que é novo ou extravagante. Quando surgiu o Bolsonaro, eu disse: “Vai subir”. Até que o Geraldo ultrapasse a poeira, é difícil. Mas ele sempre ultrapassou.

Em abril de 1994, eu virei candidato. Em maio, falei com a Ruth: “Vou desistir”. Eu tinha 12%, o Lula tinha 40%. As pessoas não acreditavam. Em agosto, comecei a crescer. Em outubro, ganhei no primeiro turno. É claro que tinha o Plano Real. Mas não é só o que você faz. É o que você fala. Tem que cacarejar.

  • Alckmin cacareja pouco?

Cada um tem um jeito de ser. O importante, em política, é não tentar ser o que não é. Este é o problema dos marqueteiros. O Geraldo ganhou várias vezes em São Paulo. Ele é médico, tem experiência, não enriqueceu na política, não é gastador. Tem que mostrar isso. Não basta ser simpático, tem que ser confiável.

  • Em 2006, ele foi criticado por vestir um macacão com os logotipos das estatais…

Ele foi o chefe da privatização em São Paulo. Aquilo foi marquetagem, foi errado. O marqueteiro é indispensável, mas ele tem que ressaltar o jeitão do candidato, e não fazer o candidato do jeitão dele. As pessoas percebem quando é inautêntico.

  • Alckmin se aliou ao centrão em troca de palanques regionais e tempo de TV. Isso ainda vai decidir eleição em 2018?

Não tenho certeza. Não é suficiente, mas é necessário. Embora a rede social tenha muita influência, a televisão tem peso. Todos os candidatos tentam ter o máximo de tempo. Quando um consegue, o outro acusa. Ele está apanhando porque fez o que todos ambicionavam e não conseguiram. Todos os presidentes tiveram que governar também com eles (os partidos do centrão): eu, Lula, Dilma.

  • O PSDB ainda pode se recuperar do desgaste com a Lava-Jato?

Todos os partidos estão desgastados. O mensalão e o petrolão mostraram o dinheiro público sustentando partidos no poder. É outra natureza de corrupção, a corrupção da própria democracia. Não tem nenhum tesoureiro do PSDB na cadeia.

  • O senador Aécio Neves foi gravado pedindo R$ 2 milhões a um empresário. A polícia filmou as malas de dinheiro.

Isso prejudica, obviamente, a imagem do partido. Não dá para tapar o sol com a peneira.

  • Por que o PSDB não o expulsou?

Ele não foi condenado ainda. Tem que respeitar a Justiça.

  • Um colaborador próximo de Alckmin, Laurence Casagrande, foi preso sob suspeita de desviar dinheiro do Rodoanel.

São Paulo faz muita obra. É possível que funcionários tenham ganhado alguma coisa. Mas não vi nada indo para o Alckmin. Nada que possa prejudicar a imagem dele.

No passado, caixa dois era uma coisa banal. É errado? É. É crime eleitoral. A Justiça vai ter que separar bem as coisas. Tudo é crime, mas são crimes diferentes. Sou favorável à Lava-Jato. Pode haver exageros. Acho difícil aceitar prisão provisória por mais de um ano, por exemplo. Não é bom ver pessoas que você conhece indo para a cadeia, mas o processo era necessário. O Brasil não aguenta mais assalto ao cofre.

  • O ministro Gilmar Mendes diz que há um Estado policial.

Há uma predisposição de acusar, é verdade. Faz parte da cultura do Ministério Público. Mas o processo legal está sendo seguido. Acho grave dizer que estamos vivendo um Estado policial. Não estamos. Você pode ter excessos. Mas eu vivi o Estado policial, sei o que é isso. Nós não vivemos isso aqui.

Há uma tentativa de desmoralizar o sistema. Quem sancionou a Lei da Ficha Limpa foi o Lula. Se você foi condenado em segunda instância, não está em condições de ser candidato. Tem que cumprir a lei.

  • O PT diz que eleição sem Lula é fraude. O sr. concorda?

Não. Vai haver eleição, e o PT vai concorrer. Hoje (sexta-feira) o Comitê de Direitos Humanos da ONU declarou que o Lula deve ser candidato. Qual a base para isso? Querem que desrespeite as leis brasileiras? A lei é clara. Ele não tem, pela lei, a qualificação para ser candidato. Como é que o tribunal vai registrar?

É preciso fortalecer as instituições. Nas democracias, sempre há o risco de eleger um personalista malucão. Ainda mais agora. Quando a s instituições são fortes, elas seguram. Quando não são fortes, o malucão as derruba. Eu vi isso na América Latina tantas vezes…

(…)

  • Nos cenários sem Lula, o líder é Bolsonaro. O que explica isso?

As pessoas estão com ódio e com medo. No Brasil, além da incerteza, tem a violência e a corrupção. O apelo por uma solução forte e simplista é grande. O Leste europeu está todo indo para a direita. Em alguns casos, para um neofascismo. O Trump quebrou os partidos com essa linguagem forte. O Bolsonaro é um reflexo deste momento de incerteza.

O que ele fez como deputado? Eu não sei. Sei que ele queria me fuzilar numa certa altura. Queria matar 30 mil pessoas (o deputado já disse que o país precisava de uma guerra civil, mesmo que morressem 30 mil). É uma visão simplória da história.

  • Ele se diz liberal na economia…

Vai acreditar nisso? A vida inteira ele não foi assim. Ele não deve ter uma convicção maior. Ele não sabe.

  • Bolsonaro o assusta?

Assusta. Não creio que ele tenha a experiência e a visão democrática de aceitar o outro com facilidade. O pior, para mim, é que ele tem soluções simplistas e autoritárias. Eu não acredito nisso. Acredito que as coisas são complicadas e que você precisa convencer. Num país diverso como o nosso, como é que você governa sem capacidade de juntar?

  • É possível que ele vá ao segundo turno.

O PT acha que o segundo turno vai ser Haddad e Alckmin. Eu acho que pode ser Bolsonaro e Alckmin.

  • E se for Bolsonaro e Haddad? O PSDB pode apoiar o PT?

Não quero aliança com o PT. Somos diferentes. O PT virou um partido hegemônico. A história nos separou.

  • PT e PSDB já se aliaram para evitar a eleição de quem julgavam ser um mal maior. Marta e Covas se juntaram duas vezes contra Maluf.

É verdade. O Covas era grande. Acho que precisamos evitar uma descambada para os extremos. Na hora da eleição, você tem que ter voto. Vai polarizar quem tiver voto.

  • E se o PSDB ficar fora?

Não farei objeção a que o PT nos apoie. Naturalmente, isso significa também que não haveria objeção ao contrário. Mas nós pensamos de forma diferente. O que acho é que isso (um eventual acordo no segundo turno) deve se dar dentro de uma visão democrática.

  • Se Lula for barrado, o PT deve lançar Fernando Haddad. O que acha dele?

Tenho uma boa relação pessoal com o Haddad. O que acho complicado é que ele está sendo visto como marionete do Lula. Um presidente tem que ter força própria para governar.

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