O grave problema da gravidez precoce no Peru

Uma menina, vítima de abusos do pai, acobertados pela mãe, deu à luz sua própria irmã no começo deste ano chocando o mundo.

O Peru vem lidando há anos com estatísticas chocantes sobre gravidez precoce, e, no começo de 2018, mais um caso extremo voltou a escandalizar e comover a opinião pública no país: uma menina de 9 anos de idade deu à luz uma bebê que, além de sua filha, é também sua irmã.

Desde os 6 anos, a menina-mãe de Tacna, cidade localizada no extremo sul do Peru, sofria abusos sexuais perpetrados pelo pai – e acobertados pela mãe. Apesar da fragilidade do seu corpo, das fortes mudanças hormonais que suportou na gestação e do próprio trauma dos abusos padecidos, a menina-mãe de 9 anos amamenta com ternura a sua bebê de três quilos e meio, um fato que chamou a atenção dos médicos responsáveis pela cesárea.

A cesárea foi realizada no hospital regional Hipólito Unanue, de Tacna, cidade onde existe um abrigo mantido pela congregação católica das Irmãs Missionárias Paroquiais do Menino Jesus de Praga.

São as freiras, agora, que oferecem à menina-mãe o cuidado afetivo e psicológico de que ela precisa para lidar com a sua nova realidade.

 

As missionárias que ajudam a menina-mãe de 9 anos em Tacna

Misioneras Parroquiales del Niño Jesus de Praga, Tacna, Peru

As missionárias dão assistência a mães adolescentes nas cidades de Arequipa, Lima, Tarma e Tacna há mais de 81 anos. A sua pastoral tem sido essencial para oferecer soluções ao drama das meninas-mães e o seu trabalho é tão importante e reconhecido que, em 2011, o Congresso Nacional peruano lhes prestou homenagem oficial.

Realidade assustadora

O desequilíbrio hormonal que leva à puberdade muito precoce está na base da explicação geral para as gravidezes em idades tão tenras (e difíceis de acreditar) quanto 9 anos de idade.

E esses casos, são menos raros do que seria de supor-se: só no Peru, entre 2011 e 2016, foram 8 gravidezes confirmadas em meninas de 9 anos de idade. É possível, porém, que tenha havido outras nunca registradas.

O país andino tem estatísticas chocantes sobre maternidade infantil. A cada dia, pelo menos 4 meninas peruanas menores de 15 anos se tornam mães, de acordo com o Registro Nacional de Identificação e Estado Civil (RENIEC). Só em 2015, esse órgão do governo do país registrou 1.538 casos de mães que tinham entre 11 e 14 anos de idade.

Estes são os números de meninas-mães no Peru entre 2011 e 2016:

9 anos de idade: 8 casos

10 anos de idade: 51 casos

11 anos de idade: 182 casos

12 anos de idade: 573 casos

13 anos de idade: 2.323 casos

14 anos de idade: 8.644 casos

Total: 11.781 casos

Pela idade, significa que absolutamente todas essas 11.781 meninas-mães foram estupradas.

Entre muitas as perguntas que se impõem diante desse quadro, uma continua sendo particularmente clamorosa:

Onde estão os estupradores?

 

O mistério de Lina, que deu à luz aos 5 anos de idade

O caso recorda a assombrosa e quase inacreditável gravidez de Lina Medina, que nunca foi completamente explicada pela ciência médica: tratou-se de uma menina-mãe de absurdos 5 anos de idade, a gravidez mais precoce já registrada oficialmente pela medicina em toda a história da humanidade.

O caso de Lina também aconteceu no Peru, em 1939.

Hoje com 83 anos, ela nunca revelou quem é o pai de seu filho

Sim, esta é uma história real, documentada e comprovada. Em 1938, a pequena Lina Medina tinha 5 anos de idade quando seus pais a levaram ao médico por suspeita de tumor no estômago, após tentarem sem sucesso descobrir junto aos curandeiros de sua aldeia o motivo do “inchaço” que a menina sofria. O que tanto os pais quanto os médicos descobriram, porém, foi que Lina estava grávida de 7 meses.

O caso inacreditável aconteceu no Peru e foi detalhadamente documentado pelo Dr. Edmundo Escomel para La Presse Medicale. Além da gravidez, ele reportou que a menarca de Lina teria ocorrido aos 8 meses de idade e que os seus seios começaram a se desenvolver aos 4 anos. À idade de 5, Lina já demonstrava alargamento pélvico e maturação óssea avançada.

Foram as suas condições hormonais raríssimas que permitiram que, aos 5 anos, 7 meses e 21 dias, Lina Medina se tornasse a mãe mais jovem já documentada pela medicina em toda a história da humanidade. Apesar de todos os riscos, ela deu à luz por cesariana em 14 de maio de 1939 – nada menos que o dia das mães no Peru.

Seu filho, que nasceu com 2,7 quilos, recebeu o nome de Gerardo em homenagem ao médico responsável pelo parto, o Dr. Gerardo Lozada.

Embora fisicamente amadurecida, Lina, que afinal era uma criança, preferia brincar com bonecas a cuidar do bebê. Gerardo era alimentado por uma enfermeira e foi criado por um tio, acreditando que Lina fosse sua irmã.

Ele só ficou sabendo da própria história aos 10 anos de idade, a partir de episódios de bullying na escola. Gerardo cresceu saudável, mas, aos 40 anos, perdeu a batalha contra uma doença na medula óssea. Nunca foi confirmada qualquer relação entre essa doença e as circunstâncias do seu nascimento. Gerardo morreu em 1979.

Quanto a Lina, cresceu na mesma miséria em que tinha nascido, sem qualquer assistência do governo peruano. Ela vive até hoje e mora num bairro pobre de Lima, a capital do seu país. Casou-se em 1972 e chegou a ter outro filho aos 38 anos de idade. Hoje com 83 anos, Lina jamais revelou o nome do pai do seu primeiro filho.

Este, aliás, é o grande mistério que a envolve. A gravidez pode ser explicada pelo desequilíbrio hormonal, mas a identidade do homem que a engravidou aos 5 anos de idade sempre foi um enigma. O pai da própria Lina, Tiburcio Medina, chegou a ser preso sob a acusação de estuprá-la, mas, sem provas, foi libertado. As suspeitas recaíram então sobre um irmão de Lina que sofria de deficiência mental. Autoridades da época levantaram também a hipótese de que a menina tivesse sido forçada a participar de rituais indígenas em que seriam comuns orgias e violações.

Sua história ímpar, como a de tantas pessoas de trajetória sofrida, atraiu mais curiosidade do que solidariedade.

Humilhações e absurdos

Como se não bastasse o estupro sofrido e toda uma trajetória de miséria, Lina enfrentou humilhações indignantes ao longo da vida.

Logo após dar à luz aos 5 anos de idade, ela se tornou notícia internacional e começou a atrair atenções inusitadas de diversas partes do mundo. Em um dos casos mais chamativos, chegaram a oferecer mil dólares por semana e o pagamento das despesas necessárias para que Lina e o filho fossem colocados em exposição na Feira Mundial de Nova Iorque.

Também houve propostas mais decentes, oferecendo ajuda financeira à menina e seu bebê, mas o Estado peruano as proibiu alegando que Lina e Gerardo corriam “perigo moral”. O governo criou uma comissão para protegê-los, mas, seis meses depois, os abandonou à própria sorte.

Lina passou onze meses no hospital depois do parto e só pôde voltar para o convívio da família com autorização da Suprema Corte.

Em 1972, quando se casou com Raúl Jurado e teve o seu segundo filho, Lina e o marido sofreram mais um baque: a casa em que moravam foi desapropriada e demolida pelo governo a fim de abrir espaço para a construção de uma rodovia. Eles não foram indenizados.

Várias pessoas lhes ofereceram ajuda e apoio ao longo dos anos. O próprio Dr. Gerardo Lozada lhe deu emprego como secretária em sua clínica, e outro médico intercedeu judicialmente para que Lina recebesse uma pensão do Estado peruano, em um processo longo, burocrático e doloroso.

Mesmo assim, Lina mora hoje, aos 83 anos de idade, no bairro limenho de Chicago Chico, uma região pobre e marcada por índices elevados de criminalidade.

 

Matéria do voluntário Walter Barreto

Com informações de Aleteia , Catholicus]
Tarciso Morais
Tarciso Morais
Fundador e editor-chefe da RENOVA Mídia

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