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OPINIÃO: Indignação seletiva e a crise no ensino brasileiro

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Indignação seletiva e a crise no ensino brasileiro

Greves de estudantes ganharam as ruas do país recentemente. A motivação foi o contingenciamento de 3,5% anunciado pelo MEC, que a mídia insiste em dizer ser 30%. Contudo, vê-se com claridade, e mais uma vez, que o foco dos protestos não é nem de longe motivado pela falta de qualidade do ensino em si, mas pautado em uma explícita agenda esquerdista. Afinal, se o corte de verba prejudica o ensino, por qual motivo o Brasil aparece no ranking PISA com um dos piores ensinos do planeta antes do tal corte de verbas? Mais ainda, por qual razão não houve protestos quando Lula e Dilma também cortaram orçamento? Existe afinal uma correlação entre investimento e qualidade de ensino?

É mais do que sabido que a relação investimento/qualidade de ensino não caminha necessariamente na mesma estrada. Basta ver os países que estão na nossa frente no ranking PISA. Muitos deles mais pobres que o Brasil, e com uma taxa de investimento financeiro no ensino muito limitado em comparação com a brasileira. Contudo, para a massa doutrinada e desviada dos caminhos do ensino real, há muito já varrida das cátedras e substituída por conceitos marxistas e outras doutrinas estupidificantes, é quase criminoso o ato de questionar uma verdade já conhecida. Os estudantes quase sempre inertes à realidade e embrutecidos por ideologias falidas do século XIX, continuam sendo o que Lênin classificou como idiotas úteis. O ensino está em decadência no mundo de maneira geral, e no Brasil isso não é diferente; porém aqui a situação já passou da esfera da normalidade e já adentrou no campo da patologia mental. Nas linhas que seguem tentarei mostrar que dinheiro – ou a falta dele – não tem ligação alguma com a qualidade do ensino. Com isso, logicamente, não afirmo que se o Estado cortasse toda a verba não acarretaria em problemas. O que quero dizer é que o ensino real transcende o fator financeiro.

A sociedade como um todo perdeu até mesmo a capacidade de diferenciar educação de instrução. O professor Armindo Nogueira1, explica da seguinte forma:

Educar é promover, na pessoa, sentimentos e hábitos que lhe permitam adaptar-se e ser feliz no meio em que há de viver. Instruir é proporcionar conhecimentos e habilidades que permitam à pessoa ganhar seu pão e seu conforto com facilidade.”

Ele continua:

“Assim, cruzamos na vida com pessoas instruídas e mal educadas; e conhecemos analfabetos com esmera educação. A instrução, por si mesma, não dá felicidade. Porém é difícil conceber que um homem bem educado venha a ser infeliz.”

Diferenciar ensino de educação é fundamental uma vez que o ensino é obrigatório em todo o mundo. Sendo o ensino obrigatório, e, centralizado em um ministério governamental, a distinção entre uma coisa e outra é vital. Em verdade a confusão gerada entre uma coisa e outra interessa e muito a governos inclinados ao autoritarismo. No Brasil, a centralização do ensino começou com o ditador Getúlio Vargas, e foi “muito bem aproveitada” na era petista. O professor Armindo Moreira define da seguinte maneira:

“Os governos antidemocratas sempre desejam que o povo pense e se comporte como aos ditadores convenha. Para conseguir isso, a escola é um bom instrumento: através dela, podem ser inculcados hábitos e sentimentos condizentes com os interesses dos governos 2.”

Hábitos e sentimentos esses que afastam geração após geração do verdadeiro propósito do ensino. Por isto o professor Armindo Moreira explica que os governos, através das escolas, devem ensinar e não educar; pois do contrário, dificilmente vencem a tentação de mentalizar o povo. O total afastamento e desconhecimento das famílias dos pormenores da vida escolar das crianças dá aos governos tirânicos a vantagem de inculcar na cabeça das crianças valores muitas vezes opostos aos de suas famílias. No Brasil, assim como em boa parte do mundo, as escolas e universidades há muitos foram “sequestradas” pelo marxismo cultural. Isso somado a escolarização obrigatória torna as escolas um enorme laboratório de testes comportamentais. Fasto Zamboni3 afirma o seguinte:

“Os regimes totalitários do século XX deram grande importância à escolarização obrigatória, baseados na ideia de que as crianças pertencem não aos pais, mas ao estado – uma ideia já defendida antes pelo Marquês de Sade. A tendência, então, era considerar educação e doutrinação como sinônimas. A criança, ainda incapaz de discutir racionalmente, era o alvo predileto, por ser mais fácil de modelar.”

O afastamento da família, como vimos, torna mais fácil a lavagem cerebral de nossas crianças. A confiança cega na escola sem questionamentos traz enormes prejuízos a seus filhos e ao país de uma maneira geral. A visão da filósofa alemã Hannah Arendt, sobre a “modernização” do ensino é taxativa:

O novo, produziu fortes consequências sobre a educação. Em pouco tempo produziram-se teorias educativas em grande profusão, numa transformação completa no que diz respeito às tradições e aos métodos estabelecidos de ensino e aprendizagem. […] em virtude de certas teorias, boas ou más, todas as regras da saudável razão humana foram postas de parte.”

Logo, a “modernização” do ensino cooptado pelo marxismo é causa primária do declínio geral do Q.I no mundo todo – e no Brasil de maneira especial. Diz Arendt:

“Se o homem, como quer Aristóteles, é o zoon politikon – o animal político – o condicionamento político por meio do ensino significa o rebaixamento dos futuros “cidadãos” a uma condição infra-humana, impedindo que cada geração tenha sua possibilidade de escolha.”

O que assistimos hoje nas escolas e universidades nada mais é do que a castração da possibilidade de escolha política. O marxismo é tão hegemônico nas instituições de ensino que aquele que destoe da massa precisa ficar em silêncio para não ser perseguido por mestres e alunos. A visão esquerdista infectou o currículo escolar e alterou toda a percepção real dos fatos, os substituindo pela visão marxista e acadêmica. O filósofo Olavo de Carvalho4 diz que:

“Para governar é preciso uniformizar os topoi (lugares comuns) e fazer com que todos pensem de acordo com pautas pré-estabelecidas. Mas o controle excessivo provocará fatalmente uma decadência da linguagem, uma vez que a experiência é abafada para se adequar aos cânones da expressão politicamente aceitável, criando o que Eric Voegelin chamou de “segunda realidade”. É da natureza do ensino assumir uma função subversiva e conduzir para fora (ex ducere) dos esquemas impostos. Nesse sentido, a absorção, reforma promoção e o controle do sistema educacional, por parte dos Estados nacionais, significou a progressiva transformação do ensino em seu inverso.”

Claro que isso foi possível somente com a centralização total do ensino nas mãos do governo. No Brasil Império do século XIX, o ensino obrigatório já era defendido. Antônio de Almeida Oliveira, apesar de ser favorável à obrigatoriedade, não defendia um ensino centralizado, e sim, livre. Defendia que os pais pudessem ensinar seus filhos em casa e que as escolas particulares não fossem regulamentadas pelo governo. Até mesmo na Primeira República, a estrutura federativa dava autonomia aos estados e impedia a centralização do ensino nas mãos do Estado. Já na era Vargas, tudo mudou. Ele centralizou o ensino e criou o Ministério da Educação. Dando início ao período de doutrinação e desfiguração do ensino. O ato em si dá razão às palavras de Armindo Moreira:

 “Os governos, através das escolas, devem ensinar e não educar; pois do contrário, dificilmente vencem a tentação de mentalizar o povo.”

A centralização do ensino somada com a tentativa de erradicar o analfabetismo e fazer cumprir os acordos internacionais firmados nessa área formaram outras bizarrices modernas como o analfabetismo funcional. Observem uma lei ainda do regime militar e mais adiante outras medidas já tomadas pós-período militar:

A lei 5.692, de 1971, ampliou a obrigatoriedade escolar para oito anos, eliminando o exame de admissão ao ginásio. Em 1990, o Brasil, um dos nove países com mais analfabetos do mundo, assinou um acordo internacional e recebeu amplo financiamento, comprometendo-se a dar ensino básico e de qualidade para todos. Durante a década de 90, procurou cumprir o acordo a todo custo: foi introduzida a “progressão continuada”, e muitos professores, perplexos, não entendiam o porquê de um sistema que aprovava automaticamente os alunos. Em muitos lugares faltavam professores, que eram substituídos por estudantes sem uma formação adequada.”

Com a clara intenção de cumprir acordos internacionais, o Estado brasileiro forçou os professores a aprovarem os alunos ainda que estes não tenham a menor condição para progressão nas séries. O resultado dessa inconsequente decisão é visto hoje nas universidades. Segundo pesquisas Três em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no País – 29% do total, o equivalente a cerca de 38 milhões de pessoas – são considerados analfabetos funcionais5. Números esses tanto quanto conservadores em minha opinião. Creio que ao menos metade dos jovens seja analfabetos funcionais.  O leitor alguma vez viu os estudantes saírem em marcha às ruas protestando contra tudo isso? Claro que não! Os protestos, quando realizados, são exclusivamente políticos. Logicamente a maior parte dos descontentes é usada (idiotas úteis). Quantos desses universitários sabem de pelo menos 10% de tudo que foi escrito até aqui? Não apenas os estudantes, mas todo e qualquer cidadão deveria se indignar contra o absurdo que se tornou o ensino nacional. Afinal todos nós sustentamos esse sistema falido através de pesados impostos. Nada disso é feito. E não é feito porque a escola/universidade virou algo sacrossanto, intocável e inquestionável. Os pais ainda creem firmemente que o ensino ofertado a seus filhos é bom. Não notaram que o sistema educacional brasileiro não é capaz de formar um cidadão plenamente instruído. Observem o que diz Fausto Zamboni sobre o culto estabelecido à escola:

“A dependência da instrução escolar, cujo poder se amplia e ocupa cada vez mais espaço na vida de todos, leva a confundir educação com escolarização. A frequência obrigatória à escola é celebrada como uma grande conquista democrática, como um “direito”, no mesmo momento que abafa ou torna impossível, na prática, a educação independente. Nosso direito inalienável de aprender apenas o que nos interessa e nos agrada foi suplantado pela obrigação sociologicamente imposta de aprender em instituições especializadas aquilo que poderia ser instrumentalmente a algum outro que possa usar-nos através de um emprego6”.

A falta de interesse é apontada por muitos professores como uma das causas que mais afetam a aprendizagem dos alunos. Logo, deixar os alunos expostos horas frente a matérias que não lhes agradam gera uma empatia não só à matéria, mas também à escola. Ninguém aprende algo que não gosta. O modelo atual de ensino é obsoleto, caro e ineficaz. Alguns intelectuais americanos defendem que o Estado não deveria criar leis que regulamentem o ensino. Eles condenam a obrigatoriedade ritual para todos. Fausto Zamboni, em seu livro Contra a Escola, diz que:

“Essa proposta é defendida por muitos intelectuais nos Estados Unidos, que afirmam que a regulação das escolas, pelo Estado, leva a uma trivialização do ensino, já que os temas mais importantes – o sentido da vida, a orientação política ou religiosa e etc – não podem ser discutidos ou seriamente defendidos num sistema público, convertendo o ensino em uma mera acumulação de dados a ser verificados nos exames, ou numa manipulação comportamental disfarçada7”.

Não bastasse tudo o que já foi apontado, temos um grande problema no tocante ao ensino também na estrutura familiar. Muitos pais hoje jogam a responsabilidade de educar – além de ensinar – aos professores. Esses, muitas vezes, acham que de fato devem educar, uma vez que a família não faz. Assim temos outro problema na já caótica instrução do aluno. O professor Armindo Moreira observa o seguinte:

“Educar pelo exemplo não é algo que esteja ao alcance do professor. Um aluno, até seus 15 anos, terá tido, no mínimo, 20 professores. Entre esses, é natural que surjam: religiosos e ateus; fanáticos, moderados e indiferentes – para com Deus e para com a Pátria; preguiçosos e trabalhadores; competentes e incompetentes; castos, desregrados e homossexuais; sóbrios e viciados; disciplinados e revoltados. Será que um ser humano pode ser educado por uma turma tão contrastante e contraditória em hábitos e convicções? 8”. 

O choque entre visões opostas entre um professor e outro ao longo da vida dos alunos os torna confusos e indecisos; incapazes de, em essência, tomar posições claras com relação a uma vasta gama de assuntos. Para que se eduque é intrínseco que se ame o educando. E sobre isso Moreira diz:

“Porém só educa eficazmente que ama o educando. Sendo assim, o professor teria de amar os educandos, para poder educá-los. E que é que poderia motivar o professor a amar os alunos: a função ou o salário?… Sabemos que nem a profissão e nem o salário, por si mesmos, geram amor. Exigir que o professor seja educador é exigir que o professor ame o aluno”.

E complementa:

“Quando os pais vão matricular seus filhos, não sabem quem são os professores de seus filhos. Como pode alguém entregar a educação de seus filhos, sem saber a quem? Esse ato seria ou não uma prova de paternidade irresponsável?”.

Não é chocante notar o status de entidade sacrossanta que a escola detém nos dias atuais? O leitor quem sabe seja alguém que confia o futuro de seus filhos a estranhos sem nunca ter percebido. Se for, por favor, repense e acompanhe atentamente seu filho na vida escolar dele. Logo, o maior perigo dos professores que se sentem na obrigação de serem educadores está na confusão mental, espiritual e moral que ele causará em seu filho.

O aluno então agregado no confuso sistema de ensino brasileiro chegará à universidade – se chegar – mentalmente confuso, doutrinado nas teses marxista e com pouca ou nenhuma instrução real.  A parte da universidade ficará para um próximo artigo. Espero que o leitor tenha compreendido que o problema do ensino nacional não tem qualquer ligação real com o aspecto financeiro. Seus problemas são essencialmente pedagógicos. Centralização nas mãos do Estado, família afastada da vida escolar, marxismo preponderante e professores que pensam que podem educar são alguns dos reais problemas. E você, querido leitor, o que acha do ensino brasileiro?

  1. Professor não é educador, Armindo Moreira – Indicto Editora, 5ª edição.
  2. Idem.
  3. Contra a escola, Fasto Zamboni – Vide Editorial.
  4. No curso Como tornar-se um leitor inteligente – 2014.
  5. https://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2018/08/epoca-negocios-tres-em-cada-10-sao-analfabetos-funcionais-no-pais-aponta-estudo.html
  6. Contra a escola, Fasto Zamboni – Vide Editorial.
  7. Idem.
  8. Professor não é educador, Armindo Moreira – Indicto Editora, 5ª edição.

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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