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Intervenção militar dos EUA na Venezuela seria uma boa ideia?

Artigo escrito pelo colaborador Carlos Júnior


Tenho notado um crescente entusiasmo entre alguns brasileiros pela possibilidade do presidente americano, Donald Trump, de intervir militarmente na Venezuela.

Uma solução um tanto sedutora, tendo em vista a situação caótica que a terra de Simón Bolívar se encontra. Uma vez que o ditador Nicolás Maduro reluta em deixar o poder, o uso da força parece ser a única opção.

Apenas parece. A situação não é tanto simples quanto parece ser, e o cenário futuro não dá esperanças de uma solução rápida e confortável. Donald Trump tem mostrado uma tendência a resolver diplomaticamente a questão. Faz certo. Uma intervenção militar na Venezuela, com o jogo de pesos e contrapesos malucos da geopolítica, seria um erro crasso do presidente americano.

A Venezuela é uma ditadura socialista. Isso é fato. O regime chavista nacionalizou recursos, fechou-se para o comércio com países desenvolvidos e utilizou as forças armadas para perseguir e assassinar opositores. Os resultados de uma gerência econômica socialista são óbvios para quem tem um pouco de conhecimento histórico e mais de dois neurônios: escassez de recursos, desabastecimento, fome e miséria elevadas a enésima potência e um consequente colapso. Além de levar o país ao caos e a falta de produtos e serviços básicos, o regime totalitário venezuelano mimou enormemente as forças armadas, garantindo seu apoio contra qualquer tipo de golpe que venha a ameaçar seu poder. O cenário é desesperador.

Mesmo com tal diagnóstico, é necessário ter em mente os custos e as consequências de uma intervenção militar na Venezuela. Historicamente tais ações militares americanas terminaram em maus lençóis – se é que terminaram em alguns casos. Além disso, a situação política e financeira americana não permite que o presidente brinque de fazer guerra como fizeram seus antecessores.

Os Bush, Bill Clinton e Barack Obama envolveram os Estados Unidos em diversos conflitos. No caso dos primeiros, as guerras sempre vieram acompanhadas de profundas recessões econômicas. Os gastos com guerras – sejam financeiros, humanitários e políticos – são enormes. Só para exemplo ilustrativo: a Guerra do Iraque custou pouco mais de US$ 2 trilhões e 4.487 militares mortos. Financeiramente é quase metade do orçamento federal aprovado em 2017. O governo americano tem uma dívida pública estimada em US$ 21,5 trilhões. Fazer mais uma guerra seria no mínimo imprudente.

As consequências também não são das melhores. Apesar do clima de caos, a tão falada guerra civil ainda não é realidade. O Grupo de Lima vem tentando uma solução diplomática para isolar o ditador Maduro, forçando sua saída do poder. Uma invasão militar americana não só iria iniciar uma guerra como agravaria o problema, forçando as forças armadas leais ao governo a aprofundar os crimes e violações cometidos ao longo do regime chavista. A Síria é o melhor exemplo disso. O então presidente Barack Obama armou grupos opositores ao ditador sírio Bashar Al-Assad na guerra civil. Estamos em 2019 e o conflito não teve desfecho, resultando na morte de 511 mil pessoas – sem falar que os grupos rebeldes deram origem ao Estado Islâmico depois.

Tropas americanas geralmente não são bem-vindas em países estrangeiros. As populações locais veem a presença militar americana como uma afronta a soberania de suas respectivas nações. Nos casos de países islâmicos, o componente religioso é forte, e ocupações e bases americanas são vistas como afrontas a religião. No caso latino – mais especificamente a Venezuela -, encaixa-se na narrativa antiamericana de que o imperialismo é responsável pela frágil situação econômica e social da região. Uma luta sem apoio local pode arrastar o possível conflito por anos, e nos casos anteriores, os americanos nada ganharam em troca.

O “The American Conservative” foi assertivo ao comentar sobre a possibilidade de uma intervenção militar:

“A intervenção militar na Venezuela normalmente seria muito improvável, mas em uma administração em que o presidente repetidamente levantou a ideia, temos que levar a possibilidade a sério. Absolutamente nenhum interesse dos EUA seria servido por uma guerra venezuelana, e seria classificado como uma das mais estúpidas guerras de escolha que os EUA já lutaram. Escusado será dizer que seria ilegal. A Venezuela é uma cúpula econômica e uma crise humanitária, mas seu governo não representa uma ameaça para os EUA e quem governa o país não é uma questão de importância vital para nós.”

O âncora da “FOX News” Stuart Varney também foi nessa linha sobre a situação:

“O que devemos fazer? Em minha opinião, nada. Certamente, nada no momento. Não criamos essa bagunça, não é nossa culpa e se intervirmos de alguma maneira seremos acusados de ’imperialistas ianques!’ e a América Latina abraçaria o anti-trumpismo.”

Confira o vídeo:

Mesmo que os neoconservadores não compartilhem da mesma opinião – incluo o conselheiro de segurança nacional John Bolton -, o correto é não usar da força para resolver a questão.

Creio que os EUA devem sim fazer algo no campo diplomático contra o ditador Maduro. 90% da população venezuelana está abaixo da linha da pobreza, a fome e o caos são generalizados. Mas uma intervenção e ocupação militares seria um tremendo erro do presidente Trump. Exemplos recentes e a atual situação mostram isso.

Referências: [1] [2] [3] [4]

Artigo escrito pelo colaborador Carlos Júnior

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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