Não há democratas moderados para as eleições de 2020 nos EUA

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Em um partido que está dando uma violenta guinada à extrema esquerda, moderação nas eleições de 2020 é agora uma questão de personalidade, não de orientação política, o que inevitavelmente deve beneficiar os radicais.

No mês passado, Pete Buttigieg, prefeito de South Bend, tornou-se a mais nova estrela do partido Democrata. O ‘prefeito Pete’ se beneficiou do destaque dado pela grande mídia bajuladora que se focou na ideia de ser ele uma perfeita mistura de atributos e características que ressoam tanto junto às tradições do meio-oeste americano (um prefeito de uma pequena cidade, casado e veterano de guerra) quanto junto ao refinamento litorâneo ([ter estudado em] Harvard e ser gay).

Como indicam seus impressionantes números de arrecadação de campanha no primeiro trimestre, Buttigieg despertou o interesse de possíveis doadores ao partido Democrata, além de mostrar sinais de avanço junto aos eleitores democratas nas primeiras pesquisas de opinião. É algo impressionante para alguém de 37 anos que, como seus críticos republicanos locais gostam de ressaltar, nunca recebeu mais do que 10.991 votos em uma eleição que ele tenha vencido.

Mas o fato mais interessante sobre sua candidatura talvez não seja a possibilidade de ele vir a ser o primeiro presidente gay norte-americano. Em vez disso, talvez seja o fato de ele ser percebido como um dos principais moderados na corrida presidencial democrata para 2020.

Há atualmente 18 democratas disputando a candidatura para a presidência dos Estados Unidos. O ex vice-presidente Joe Biden, que ainda não anunciou sua candidatura, é o atual favorito [para se tornar o candidato do partido Democrata], e alguns outros, tal como o prefeito de Nova York, Bill De Blasio, estão correndo por fora, ainda alimentando a ilusão de terem também alguma chance de ser a pessoa que irá desafiar o presidente Donald Trump no ano que vem.

É algo comum para jornalistas políticos inventarem categorias classificatórias para ajudar a entender a corrida eleitoral. Mas se por um lado seria incorreto dizer que não existem diferenças entre os candidatos líderes, por outro lado a criação de “faixas” de classificação – principalmente de uma para os moderados – é algo enganador se você estiver tentando discutir sobre como qualquer um deles governaria caso fosse eleito. E não há melhor exemplo disso que o prefeito Buttigieg.


Buttigieg é mais esquerdista do que a sua imagem sugere

Por qualquer padrão razoável, Buttigieg é um esquerdista radical quanto aos assuntos políticos. Ele apoia uma versão do “Medicare for All” [1 ] e, em algum momento, a extinção dos planos dos planos de saúde privados, bem como uma vasta ampliação de direitos [nos Estados Unidos]. Ele apoia também o “Green New Deal” [2 ], o Acordo do Clima de Paris e outros métodos ‘agressivos’ de combate ao aquecimento global, sem falar no maior controle sobre armas, na ampliação do perdão ao não pagamento dos financiamentos escolares e na oposição às políticas de imigração do presidente Trump.

Mas em 2019 um político democrata pode ser denominado ‘moderado’ se ele não se autoproclamar um ‘socialista’, se não for a favor da extinção de todos os seguros privados ou se não for a favor de se nacionalizarem os gastos com a educação universitária.

O principal candidato democrata assim chamado de ‘moderado’ é Biden. Mas isso parece ser decorrência unicamente de sua longa história de posições anteriores que encontravam eco junto aos trabalhadores de gerações passadas que apoiavam o partido Democrata. Biden tem dado poucos ou nenhum sinal de que ele está preparado para enfrentar a extrema esquerda do partido Democrata em nenhuma das pautas atuais.

A senadora Amy Klobuchar atraiu atenção para sua suposta moderação dizendo opor-se ao Medicare for All, embora praticamente na mesma frase ela tenha dito que apoia uma grande expansão do acesso ao mesmo programa, o que na prática não muda nada. Mais precisamente, o histórico da senadora está em linha com as inclinações dos doutrinadores de esquerda do Partido Democrático Trabalhista e dos Agricultores de Minnesota. [3]

Outros democratas que são apontados como ‘moderados’ merecem ainda menos essa classificação.

Harris, O’Rourke e companhia não são nada melhores

O propósito de ‘moderação’ da senadora Kamala Harris consiste em alardear altos índices de condenação [de réus em processos judiciais] e o apoio à polícia quando ela era procuradora da cidade de São Francisco. Desde então ela se afastou de qualquer coisa que remotamente pudesse soar como o que estamos acostumados a conhecer como um candidato ‘da lei e da ordem’ e abraçou toda e qualquer proposta radical que ela consegue para turbinar sua candidatura e ceder a seus colegas da esquerda.

O ex-deputado Beto O’Rourke é outro supostamente moderado, mas isso é apenas resultado de seu fracasso em anunciar a maior parte da plataforma que está por trás de sua crença em que ele deve ser presidente. Seu próprio histórico ao longo de três mandatos sem brilho na Câmara dos Deputados norte-americana o revela como sendo mais um esquerdista em assuntos fiscais.

Mesmo os poucos democratas que possuem alguma credencial autêntica no sentido de serem [politicamente] moderados não se encaixam muito bem no perfil. O ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, é um conservador no âmbito fiscal que faz piada sobre o Medicare for All como sendo um programa irrealista. Isso faz dele um político de direita dentro do panorama atual do partido Democrata e foi o suficiente para convencê-lo de que ele não tinha nenhuma chance de competir com sucesso na corrida presidencial. Mas em muitos outros temas, como controle de armas e meio ambiente, o bilionário é tão esquerdista quanto qualquer um dos que permanecem na campanha eleitoral e de cujas candidaturas pensa-se terem alguma chance em 2020.

O mesmo se aplica ao ex-CEO da Starbucks, Howard Schultz, que está considerando disputar as eleições em 2020 com uma candidatura independente, que ele diz que lançará se os democratas optarem por um candidato de extrema-esquerda (o que é provável, atualmente). Mas ao invés de se opor aos esquemas mais radicais de direitos defendidos por [Bernie] Sanders e pelos demais candidatos [democratas], não há nada no histórico de Schultz ou em sua atual plataforma política que indique que ele não seja um esquerdista.

O que os atuais membros do partido Democrata consideram por ‘moderação’ tem pouco ou nada a ver com problemas econômicos ou sociais, muito menos com política externa. Em vez disso, trata-se de sensibilidade.


É tudo sobre a personalidade, não sobre a essência

Em um tempo em que a cultura do partido Democrata é cada vez mais determinada por socialistas declarados como Sanders ou o novato trio de membros radicais da Câmara dos Deputados que se apoderaram da imaginação coletiva – as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar e Rashida Tlaib –, a moderação não é uma questão de oposição a um extremismo progressista, mas sim de índole e comportamento.

Buttigieg é considerado um moderado porque ele rotineiramente aparece com uma fala suave, respeitador da fé e disposto a escutar outros pontos de vista , ainda que as diferenças entre suas posições e as de Sanders não sejam muito grandes. O mesmo se aplica a Klobuchar, cuja candidatura, pelo menos nos estágios de planejamento inicial, parecia basear-se na ideia de que alguém que incorporasse o espírito “‘sujeito bacana’ de Minnesota” poderia ser uma alternativa revigorante a Trump. (ao menos foi até que alguns de seus ex auxiliares no Senado americano a descreveram como uma chefe tirânica e raivosa.)

A moderação de Biden decorre de sua reputação como um tradicional político do aperto de mão, que pode fazer amizade com oponentes do outro lado do corredor [4 ], algo que é difícil imaginarmos os eternamente raivosos Sanders e Ocasio-Cortez fazendo. Mas dado o seu histórico de demonizar adversários (como em seu discurso de 2012 para uma plateia de afro-americanos em que [Biden afirmou] que os Republicanos ‘os colocariam todos acorrentados de novo’), [chamar Biden de moderado] é um termo tão equivocado quanto as tentativas de se dizer que suas crenças políticas distanciam-se das crenças dos [esquerdistas] radicais.

A verdade sobre o campo democrata para 2020 é a de que não existem moderados se por este termo quisermos nos referir a pessoas preparadas para ter um apelo junto aos eleitores independentes e aos republicanos como candidatos que se opõem aos excessos dos radicais do partido Democrata. Nenhum parece ser capaz, e nem mesmo desejar, repetir a atitude de Bill Clinton de confrontar questões controversas, pela qual ele se estabeleceu como alguém preparado para conquistar território no centro do espectro político.

Isso é uma vergonha em um partido do qual, de acordo com [pesquisa do Instituto] Gallup, 34 porcento de seus partidários consideram-se moderados e 13 porcento consideram-se conservadores. Em outras palavras, pode realmente existir espaço para um moderado genuíno [no partido Democrata]. Mas nenhuma pessoa assim estará entre os candidatos que disputarão a eleição. Isso diz muito sobre a força dos democratas radicais e aquilo que provavelmente se conformará para ser uma disputa eleitoral na qual, a despeito dos equívocos e do comportamento ‘não-presidencial’ de Trump, o atual presidente pode não ter muito trabalho para convencer os eleitores de que seu adversário não se insere no pensamento político dominante [do povo americano].


Tradutor: Gualter Adães Engellender

[1 ] O “Medicare for All” é um plano defendido pelo senador Bernie Sanders que pretensamente proporcionaria cobertura universal a todas as pessoas que vivem em território americano, as quais, tirando-se poucas exceções, não teriam que pagar nada para receberem qualquer tipo de atendimento de saúde e medicamentos e que levaria à extinção dos planos de saúde privados nos Estados Unidos, alterando radicalmente o atual sistema de saúde daquele país.

[2 ] O “Green New Deal” foi um plano apresentado pela congressista de extrema-esquerda Alexandria Ocasio-Cortez, com mudanças radicais na legislação ambiental norte-americana que exigiriam dezenas de trilhões de dólares para que fossem implementadas.

[3 ] O referido “Partido Democrático Trabalhista e dos Agricultores de Minnesota” (Minnesota Democratic Farm and Labor Party) é uma entidade partidária afiliada ao partido Democrata em Minnesota, resultante da fusão entre o Minnesota Democratic Party e o Minnesota Farmer-Labor Party.

[4 ] O “outro lado do corredor” refere-se à separação tradicionalmente existente entre os assentos ocupados pelos parlamentares republicanos e democratas no Legislativo norte-americano.

(Notas do tradutor)

Traduzido de artigo publicado no site The Federalist (tal como acessado em 21/04/2019, às 14:00h)

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