OPINIÃO | Nem: seguindo a agenda, até traficante vira intelectual

Português   English   Español
TARCISO MORAIS
TARCISO MORAIS
Fundador e editor-chefe da RENOVA Mídia

Em uma prisão de segurança máxima, o traficante condenado Nem deu entrevista ao jornal El País.

Um país que já viu político corrupto e odiado ser reeleito e uma mulher que planejou a morte dos pais receber presentes de um programa de TV não deveria ser capaz de continuar se impressionando. Mas, como é dito, brasileiro não desiste nunca. Como se todos os absurdos vistos por aqui já não fossem suficientes, resolveram dar voz a um ex-traficante.

Em uma entrevista que, sem contar com as peculiaridades, faria qualquer pessoa imaginar que se trata de um morador de favela pobre e desempregado, o jornal El País resolveu mostrar o lado “humano” de Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, assim como Gugu fez com Suzane von Richthofen. Ele teve espaço para falar sobre a sua vida antes, durante e depois do tráfico, para falar sobre política e sobre como é a sua vida na prisão.

Se você acha que ele se arrepende de ter feito alguma coisa, está completamente errado. Pelo contrário, Nem diz tudo o que fez foi para salvar a filha, como se tantas outras famílias pobres não possuíssem parentes com alguma doença ou deficiência e nem por isso correm para o tráfico. Expectativas derrubadas, vamos aos principais pontos da entrevista.

Nem não hesita em falar de como a Rocinha funcionava durante o seu “governo”. Ele fala das suas ofertas à população, dando a possibilidade de escolher entre “troca de tiros com a polícia” ou “um baile funk tranquilo”, e de como a polícia corrupta do Rio de Janeiro impediu a sua suposta tentativa de sair do mundo do crime, como se alguma dessas coisas o fizesse ser mais digno. Para se ter ideia, Nem foi condenado a mais de 96 anos de prisão. Coisa boa não deve ter feito.

Quando o tema da entrevista se volta à atualidade, Nem novamente faz questão de ressaltar a tranquilidade da favela enquanto ele chefiava. Diz que se sente mal ao ver “moleque andando na rua e traficante extorquindo morador, [pois] nada disso existia quando eu estava lá”, ignorando as condenações que citam o “tribunal do tráfico”, onde a pena às vezes chegava a ser a vida, e a responsabilidade atribuída a ele por tudo o que acontecia na Rocinha, afinal era ele quem chefiava o morro.

Além disso, Nem dá a sua opinião sobre a intervenção militar no RJ e diz não acreditar na eficácia, pois “os problemas do Rio não se resolvem com o Exército ou polícia”. Lembra também do seu envolvimento com militares e políticos, e pergunta: “Você acha que os políticos não sabem como resolver os problemas do Rio de Janeiro?”. Respondendo a sua própria pergunta, ele afirma que os políticos não fazem nada pois não se preocupam com o futuro, e sim com o próprio mandato. Ainda segundo ele, não basta apenas investir em educação. Como um terrorista que defende o fim da radicalização, ou um açougueiro que marcha contra o consumo de carne, Nem diz: “Quer tirar o poder do traficante? Só legalizar.”. Nem o melhor roteirista de ficção conseguiria emplacar ironia tão grande.

A entrevista segue e começa a tomar um rumo político, com o ex-traficante afirmando que as autoridades só se preocupam com o traficante “da favela, negro e pobre” e se referindo ao helicóptero da família do senador Zezé Perrella (PDT), amigo de Aécio Neves (PSDB), que foi encontrado com 500kg de cocaína. Ele lembra também do filho da desembargadora que foi encontrado com 130 quilos de maconha no carro e que foi liberado em tempo recorde. Ainda na política, Nem chama o presidente Michel Temer de golpista e diz que a Constituição foi rasgada e fala que não acredita em uma vitória de Jair Bolsonaro pois não acha que “o brasileiro vai fazer igual o pessoal fez nos Estados Unidos, e eleger um cara como o Trump.” e diz que, se pudesse, seu voto seria no ex-presidente Lula. É o que bastava para ganhar atenção da mídia e virar um novo queridinho. Quem sabe, em breve, não ganha uma coluna na Globo News?

Já no final da entrevista, Nem nega sua suposta ligação com o PCC, mas fala sobre a dita importância da facção para a segurança no estado de São Paulo. “Sem o PCC São Paulo ia virar um inferno. Quem você acha que acabou com a violência lá? Foi o Estado por acaso?”, questiona. Por fim, Nem fala sobre livros e reclama de não ter sido autorizado de ler o livro O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio, que conta a sua história, e a biografia de Stálin, líder comunista soviético.

É claro que Nem, assim como Fernandinho Beira-Mar, não foi um traficante qualquer e que entrou para a história do país, ainda que de maneira negativa. Mas, é questionável a tentativa de mostrar um lado “humano”, como dito no começo do artigo, dele. Nem não foi humano. Além de ter ordenado diversas mortes diretas, participou de maneira indireta de muitas outras, suas ações como chefe da Rocinha deixaram sabe-se lá quantas famílias sem algum parente. Ser líder do tráfico e ter a sua história contada pode até ser interessante para algum thriller policial, mas ser adorado ou respeitado, não. Assim como Richthofen, o casal Nardoni, o goleiro Bruno (de quem Nem era amigo) e tantos outros criminosos pelo país, o lugar dele é na cadeia, principalmente por não se arrepender de tudo o que cometeu. Ele não era inteligente, como muitos estão afirmando após a divulgação da entrevista. Na verdade, ele não tinha moral alguma e, por isso, teve a coragem de fazer tudo o que o levou ao topo. Não é por ter uma opinião que a mídia considera aceitável que merece ganhar espaço.

 

Este artigo é a opinião do colaborador João Guilherme publicada na Renova Mídia. CONFIRA outros artigos do autor!
SIGA A RENOVA

Compartilhe...

Share on whatsapp
Share on google
Share on pinterest
Share on linkedin
Share on email

Deixe seu comentário...

Veja também...