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O previsível fim do acordo nuclear e a escalada militar entre Israel e Irã

Na última terça-feira (8), o presidente americano Donald Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos da América do JCPOA (sigla em inglês para Joint Comprehensive Plan of Action), o famoso acordo nuclear iraniano.

Na mesma semana, Israel e Irã se confrontaram nas colinas do Golã e na Síria através de lançamentos do mísseis iranianos, que foram respondidos pelos maiores ataques aéreos israelenses contra o território sírio em 45 anos.

No dia 30 de abril, quase duas semanas antes do anúncio de Donald Trump, o primeiro ministro israelense Benjamin ‘Bibi’ Netanyahu apresentou milhares de documentos do programa secreto nuclear iraniano, que teriam sido roubados pela Mossad no começo de 2018. Uma operação incrível do ponto de vista logístico e de inteligência.

Muitos podem pensar que o movimento de Netanyahu ao mostrar os documentos ao mundo tenha sido arquitetado para influenciar Donald Trump, mas todos sabemos, pelo menos desde as campanhas primárias, que Trump faria de tudo para concertar esse acordo ou sair dele, como acabou ocorrendo.

A retirada americana já era a muito prevista pelos principais atores regionais, tanto que Israel vem intensificando a quantidade de ataques a alvos iranianos na Síria (Guarda Revolucionária, Hezbollah ou milícias xiitas). O Irã, porém, ultrapassou a linha vermelha imposta por Netanyahu quando atacou o território do país judeu. A resposta israelense foi devastadora, com o ministro da defesa israelense declarando: “Israel atingiu quase toda a infra-estrutura iraniana na Síria”.

Ao contrário da administração Obama, que pedia cautela e condenava ações israelenses, o governo Trump emitiu seu total apoio ao “direito de Israel de revidar ataques contra o seu território”.

O Irã tem que entender que está lidando com uma administração americana totalmente diferente, que não vai ficar de braços cruzados com a recente expansão e agressão iraniana na região. Assad e Putin já entenderam muito bem o recado, com o regime sírio sofrendo dois ataques militares diretos após o uso de armas químicas.

Antes de mais nada, considero a decisão de Trump acertada, sendo o acordo patrocinado por Obama e assinado em 2015, uma aberração diplomática onde o Irã recebeu diversas vantagens (inclusive bilhões de dólares), enquanto não abria mão de quase nada, pois o acordo não mencionava o programa de mísseis balísticos do regime e deixava de fora das inspeções bases militares. Especialistas militares afirmam que a maioria dos mísseis balísticos produzidos e testados recentemente pelos iranianos não fazem sentido sem uma ogiva nuclear para ser carregada.

Os iranianos mentiram, assim como os europeus e o governo americano. A diplomacia da mentira do governo Obama levou a região a experimentar um período caótico acima do normal para os padrões do Oriente Médio. O dinheiro que estava bloqueado e que foi liberado ao regime após o fim das sanções foi usado exclusivamente para a desestabilização da região, com o regime iraniano financiando diversas organizações terroristas e estabelecendo bases da Guarda Revolucionária na Síria, com o claro intuito de atacar o estado israelense. Acredita-se que, somados aos mísseis do Hezbollah, o Irã e seus aliados tenham cerca de 100 mil mísseis de diversos tamanhos e alcances apontados diretamente para território israelense. O que explica o aumento da atividade militar israelense na região.

O acordo permitiu ao Irã fortalecer o seu apoio militar e financeiro não só ao Hamas e ou Hezbollah, mas também aos rebeldes Houthis, que tentam tomar o controle no Iêmen e lutam contra uma coalizão de países sunitas e do golfo liderados pela Arábia Saudita.

O apoio aos xiitas Houthis no Iêmen é estratégico para os iranianos pois permitiria ao Irã controlar o estreito de Bab-el-Mandeb, que liga a África e o Oriente Médio pelo golfo de Aden. O estreito é estrategicamente usado por embarcações comerciais de todo mundo para a passagem para o canal de Suez e é visto pelo regime iraniano como fundamental para ter certa alavancagem política e militar sobre o Ocidente.

Vale lembrar a grande influência que o regime tem sobre o Estreito de Ormuz, que também é muito importante para navegações comerciais de todo mundo, com o Irã constantemente ameaçando fechar o estreito para navegação. A região é tão importante e estratégica que é lar da 5ª frota naval da marinha dos Estados Unidos, localizada no Bahrein.
Os dois pontos geográficos estratégicos que o Irã quer utilizar como vantagem militar e econômica.
A estratégia da administração Obama anterior ao acordo, com o fortalecimento das sanções, foi considerada correta, pois obrigou o regime iraniano a negociar. Mas toda a vantagem que os americanos detinham na época das negociações foi jogada no lixo com os termos do acordo. Qualquer um que defenda o acordo não o conhece ou ganhou uma grande quantidade de dinheiro com ele (como os europeus, que fizeram diversos negócios bilionários com o regime).

O Irã, em resposta à Trump, subiu o tom dizendo que pode enriquecer urânio como nunca antes. Mas com as sanções econômicas aliadas a pressão militar de Israel, Arábia Saudita e dos EUA, é provável que o regime iraniano se sente a mesa para negociações nos próximos anos. A rendição norte-coreana mostra ao Irã que a chantagem nuclear não funcionará com Trump no cargo e é difícil imaginar a elite politica e religiosa iraniana dobrando a aposta e permitindo um conflito de larga escala em que a desvantagem militar seria muito grande.

O presidente Trump mudou os cálculos dos inimigos americanos aderindo à filosofia de “paz pela força”. Isso não significa que as forças armadas dos EUA precisem lançar uma missão militar tática para destruir as instalações nucleares do Irã (isso, provavelmente, será trabalho israelense) mas a ameaça é apresentada como real, e o regime precisa entender como tal.

Mesmo que o discurso revolucionário do regime nunca tenha mudado – Morte à América, Morte à Israel – a carência de um aliado que possa efetivamente proteger o regime da extinção em caso de um conflito, nos leva a crer que este conflito não ocorrerá.

O cenário descrito acima ficou evidente após o presidente russo Vladimir Putin anunciar que a Rússia não fornecerá ao regime sírio de Bashar al-Assad o sistema antiaéreo S-300, que seria utilizado em bases onde atuam em conjunto forças sírias e iranianas. O anúncio ocorreu após uma reunião entre o presidente russo e o primeiro ministro israelense Netanyahu.

A inação russa nos recentes ataques americanos contra o regime sírio mostra um recuo estratégico de Putin diante do endurecimento americano em relação à Rússia e seus aliados. Parece óbvio que Putin não arriscaria uma Terceira Guerra Mundial pelo regime de Bashar al-Assad. E muito menos pelo regime islâmico do Irã. Israel e Rússia detém boas relações comerciais e diplomáticas e Putin não parece disposto a estragar tais relações. Isso, porém, não significa a retirada total da presença russa na região, mesmo com um corte no orçamento militar de assustadores 20% para o ano de 2018.

Graças a Trump, o desastroso legado de Barack Obama na América e no mundo está sendo apagado dia após dia.

 


Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da Renova Mídia

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