O que está em jogo na relação entre EUA e Arábia Saudita

O assassinato do jornalista do The Washington Post, Jamal Khashoggi, colocou o regime autoritário da Arábia Saudita sob pressão das democracias ocidentais pelo suposto envolvimento direto de seus governantes.

Diversos países vêm criticando a autocracia saudita e impondo sanções ao país num movimento ainda tímido, porém, ao longo das investigações da morte de Jamal Khashoggi, tais sanções podem aumentar.

Nações europeias como França e Reino Unido lideram as pressões mundiais contra a Arábia Saudita – mesmo que elas mesmo tenham ignorado e até aceitado por anos os inúmeros desrespeitos do país aos direitos humanos. Entretanto, a maior nação do mundo, os Estados Unidos, vem se mostrando ainda calma ao embate saudita. Como bons motivos para tal, bom que se diga.

Primeiramente, deve-se saber do que estamos falando. A Arábia Saudita é um país localizado no Oriente Médio, numa região dominada pela religião islâmica (exceto Israel). Possui grandes reservas de petróleo – a empresa estatal saudita responsável pela extração do recurso produz 10 milhões de barris de petróleo por dia. Por esse fato, o país tem uma grandiosa importância geopolítica e que, aliado as características anteriormente citadas, o fazem de assunto discutido nos altos escalões dos governos das maiores potências do mundo.

Para os EUA, é importante ter um pilar para a sua relação diplomática com o Oriente Médio. Esse pilar era anteriormente o Irã, com a subida do Xá Mohammad Reza Pahlavi ao poder em 1953, que era aliado dos americanos. Porém, com a revolução islâmica radical de 1979 e a queda do Xá, transformando o país numa nação antiamericana e patrocinadora do terrorismo, o Irã deixou de ser tal pilar. Para ter um canal de diálogo melhor com a região, o governo americano então decidiu estreitar ainda mais suas relações com a Arábia Saudita.

O próprio Irã é um dos motivos pelos quais EUA e Arábia Saudita são aliados. A queda de Saddam Hussein no Iraque deixou um vácuo de poder no Oriente Médio, iniciando uma briga entre a Arábia Saudita e o Irã pela hegemonia na região – ambos os países cortaram relações diplomáticas em 2016. O Irã é um estado-pária para os americanos, e qualquer forma de liderança iraniana na região é vista como uma afronta em Washington. Sendo assim, árabes e americanos trabalham juntos para combater o Irã.

Sendo uma nação islâmica com facções profundamente radicais, a Arábia Saudita é um barril de pólvora podendo explodir a qualquer momento. Exemplos como o do Irã mostram que a qualquer momento um regime antiamericano pode brotar em países do Oriente Médio. Com isso, é extremamente necessário aos EUA ter boas relações com o atual regime saudita. Já pensando nisso, o então presidente americano Harry Truman assinou em 1952 com os sauditas um tratado de mútua defesa, movimento que confirmou uma aproximação maior iniciada com seu antecessor, Franklin Delano Roosevelt.

As relações comerciais entre ambos os países são grandes e importantes a ponto de mudanças significativas acontecerem. Os americanos precisam do petróleo saudita, que representam uma fatia do consumo americano que não pode ser ignorada. Por outro lado, os EUA são o maior fornecedor de armas para Arábia Saudita – 61% de suas armas são importadas dos americanos. A relação comercial entre ambos é intensa e envolve setores estratégicos e sensíveis demais para mudanças nesse quadro.

A questão do petróleo parece mais uma extensão da anterior. A Arábia Saudita é um dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), entidade que praticamente dita os rumos do comércio e dos preços de tal recurso. Alguns membros são hostis aos EUA, como Irã, Iraque e mais recentemente a Venezuela. Adicionado o fator religioso e a questão do terrorismo islâmico, o governo americano entende que o país seria um adversário potencialmente mais perigoso e poderoso que os atuais na Guerra ao Terror.

O último ponto levantado também explica as boas relações entre sauditas e americanos. A família de Bin Laden é saudita, e muito poderosa localmente, Isso levantou suspeitas contra o governo de financiar a Al-Qaeda. Entretanto, o regime saudita não só reconheceu a entidade como organização terrorista – bem como o Talibã – como vem colaborando na Guerra ao Terror empreendida pelo ex-presidente americano George W. Bush. No início de 2016, a Arábia Saudita executou 48 pessoas acusadas de participarem de organizações terroristas.

O atual presidente americano Donald Trump não dá provas de que tal relação histórica irá sofrer mudanças significativas. É bom lembrar que a Arábia Saudita foi o primeiro país a ser visitado por Trump depois de tomar posse como presidente. Sua política não-intervencionista corrobora ainda mais com a ideia de não querer inimizade com os sauditas, evitando assim futuros conflitos militares. Mesmo que políticos de ambos os partidos pressionem Trump por uma mudança de rumos na diplomacia com os sauditas, é bem improvável que na prática isso irá acontecer.

Por tudo isso, é impensável que as relações entre EUA e Arábia Saudita sofram significativas mudanças ou deixem de acontecer. Além do histórico compromisso de defesa entre ambos, as relações comerciais envolvendo armas e petróleo, a questão do terrorismo e as atitudes da atual administração, sauditas e americanos continuarão aliados a menos que um fato novo e muito destrutivo aconteça.

Texto escrito pelo colaborador Carlos Júnior

Referências:

  1. Terra
  2. BBC
  3. Medium
  4. Exame
  5. DW

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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