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OPINIÃO: O silêncio dos inocentes

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Aqueles de que não gostamos podem até ser ignorados, mas não calados.

O Facebook, codinome Foicebook, anunciou na quarta-feira (25) a exclusão de quase 300 páginas, entre perfis pessoais e páginas públicas, por “propagarem notícias falsas”.

A rede-social alega que a medida foi tomada após rigorosa investigação, mas será que foi mesmo? Ok. Talvez tenha até havido uma investigação, mas quanto ao conteúdo compartilhado pelas páginas, não quanto à veracidade do mesmo, como supostamente foi.

Fake news é a desculpa perfeita para silenciar aqueles que, por motivos puramente políticos, você não quer ouvir. E este é um problema que tende a crescer muito mais com o passar do tempo.

A história do termo fake news já é bastante conhecida, tendo sido popularizado lá em 2015/16, época das eleições americanas, por Donald Trump para rotular as notícias montadas pela grande mídia para tentar derrubá-lo. Antes era apenas conhecido como boato, mas com a explosão da influência da internet na opinião da população, virou algo passível de banimento de redes sociais.

De lá para cá, a confusão pelo uso do termo só cresce. E não por ignorância, mas por desonestidade. Aqueles que detém o poder de influência – ou que pensam que o tem – passaram a deturpar o uso termo, ligando-o àquelas simples notícias das quais não concordam. Se alguém fala que a liberação das drogas, por exemplo, é algo mal, ainda que apresentando estudos, gráficos e dados e mais dados, é imediatamente taxado de mentiroso por falar algo que não está de acordo com aquilo que a agenda propõe. Por outro lado, se alguém que o aborto melhora a taxa de intelectualidade da população – hiperbolizando a situação, para deixar claro – simplesmente por achar que é assim que acontece, sem apresentar qualquer tipo de prova, passa batido. E por que isso importa? Porque cala os inocentes.

Este que vos fala, ou melhor, escreve, é alguém que tem uma postura declaradamente conservadora, sem explicitar moldes antigos para não ser prepotente, portanto contra certos tipos de liberais chatos/liberais demais do MBL ou contra o pessoal do PT azul. Ainda assim, tenho consciência de que eles apenas falam o que não gosto (com raras exceções), e isto não é motivo para censurá-los. E ainda que isto pareça a postura correta para qualquer um que tenha um QI minimamente superior ao de um hamster, não é como a maioria das pessoas pensam, como pode ser visto no caso do banimento de páginas de coordenadores do MBL e outras ligadas a movimentos de direita do Facebook.

Como foi dito no começo do texto, a plataforma afirma que a medida foi tomada após rigorosa investigação e para “combater as fake news” – em palavras trocadas por mim, as literais encontram-se no começo do texto. O problema é que, ainda que a rede social não tenha divulgado uma lista das páginas que foram banidas, é sabido que a maioria delas tem um perfil mais conservador, em referência a tudo aquilo que não faz parte da agenda aceita por quem comanda a plataforma. E isto ataca diretamente a liberdade de expressão.

Influenciadores de esquerda apoiam a medida, outros menos conhecidos dizem que o MBL e a direita não podem reclamar de censura, já que defendem o livre mercado e a liberdade que as empresas têm de agirem conforme entendimento próprio. De fato, estas são pautas defendidas pelos atacados, mas em uma balança, o que vale mais? O direito de calar ou o direito de se expressar? A proporção deixa claro que, ainda que você tenha o direito de agir como bem entender, calar o outro por falar o que você não quer ouvir é censura. E é isso que Facebook e Twitter têm feito com quem não segue a agenda deles, só que agora de forma mais agressiva. Não se trata de expulsar de sua casa alguém que entrou para te xingar, mas de cortar o alcance de movimentos que têm ideias que se opõem às suas.

É perfeitamente compreensível ficar irritado quando páginas como Catraca Livre, Quebrando o Tabu e outras compartilham mensagens fazendo apologia às drogas, ao aborto e a restaurantes que fazem pratos à base de fezes. Mas isto não é motivo para querer silenciá-las, por mais grotesco que pareça. Ser mau-caráter ainda não é crime, então parafraseando algum ~filósofo contemporâneo, deixe que digam, que pensem, que falem. Eles devem ser atacados e denunciados por propagarem “fake news reais” ou por falarem que uma criança tocar em um marmanjo pelado é arte. De resto, deixem eles se lambuzarem em lama e provarem drinks feitos com esperma, porque isso em nada nos atinge.

Do MBL à Socialista Morena, todos têm o direito de se expressar.

(Peço perdão adiantado pelo discurso que soa um tanto como os feministos que compartilham páginas de esquerda para saírem do celibato involuntário, ou como alguém que se finge de conservador, mas ama um PSDBista.)

Silenciados devem ser aqueles que fabricam notícias falsas para prejudicar candidato X ou Y, não os que não pensam como a gente. Que a gente lute contra a vontade que eles têm de transformar 2018 em 1984, de normalizar a pedofilia ou de falar que assalto é algo normal, mas que não apoiemos aqueles que querem o silêncio dos inocentes.

 

Artigo de João Guilherme no projeto Voluntários Renova

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da Renova Mídia

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