Quase 3 milhões de crianças sem escola na Venezuela

Além da falta de alimentos para merendas, as escolas da Venezuela sofrem com o colapso do sistema de transporte e os preços inacessíveis das passagens de ônibus. Os cortes de água e luz também são frequentes.

Quase três milhões de crianças venezuelanas estão perdendo parte das aulas, quando não todas, segundo estudo feito por universidades, em mais um efeito secundário do aprofundamento da crise econômica, que pode causar danos duradouros ao país.

De acordo com informações do Valor:

No total, a nação integrante da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tem cerca de oito milhões de crianças na escola. No regime socialista do ex-presidente Hugo Chávez, de 1999 a 2013, o ensino gratuito era uma das pedras angulares.

Agora, o setor de educação está em crise, assim como os hospitais e outros projetos de bem-estar social, trazendo sofrimento aos venezuelanos e corroendo o legado de Chávez antes da eleição presidencial de 20 de maio, quando seu sucessor, Nicolás Maduro, buscará a reeleição.

Em Socopó, no Estado agrícola de Barinas, terra natal de Chávez, metade das 20 escolas públicas, incluindo a Orlando García, fechou completamente em fevereiro, com o ano letivo já iniciado. Desde então, elas reabriram, mas da mesma forma que as demais 1.600 escolas públicas de Barinas, funcionam apenas três dias por semana.

A implosão econômica da Venezuela resultou numa escassez de alimentos e deixou milhões de pessoas sem condições de comprar artigos básicos. Os preços dobram a cada dois ou três meses e, a cada dia, a moeda vale menos. Especialistas em educação temem ver uma geração perdida.

“Pessoas com fome não conseguem ensinar nem aprender”, disse Víctor Venegas, presidente da divisão em Barinas da Federação de Trabalhadores da Educação da Venezuela. “Vamos acabar sendo uma nação de analfabetos”.

Uma das grandes vantagens das escolas era a merenda gratuita, mas os programas estatais de alimentos agora são intermitentes e, quando há almoço disponível, em geral é pequeno e carente em proteínas. Os problemas são sentidos em todo o país e as crianças muitas vezes ficam doentes ou zonzas pela má alimentação.

Críticos acusam Maduro de incompetência e corrupção, mas ele atribui a culpa da crise a Washington e à oposição por travarem uma “guerra econômica”.

As autoridades minimizam constantemente os problemas sociais. “Pode haver problemas no programa de alimentos em alguns municípios, mas estamos sempre atentos e buscando melhorar a situação”, disse o ministro da Educação, Elías Jaua, em Barinas.

O governo insiste em dizer que a educação continua sendo prioridade e que 75% do orçamento nacional vai para o setor social.

“Em meio à guerra econômica, queda nos preços do petróleo, assédio internacional e a perseguição financeira, nenhuma escola fechou”, disse Maduro, em comício em Caracas em março, referindo-se às sanções dos EUA contra a Venezuela. O governador de Barinas, Argenis Chávez, porém, admitiu os fechamentos em Socopó, e culpou a oposição, dizendo que os problemas fazem parte de um plano para sabotar a eleição.

Apesar da pletora de problemas na Venezuela e da baixa popularidade de Maduro, acreditase que ele vai vencer as eleições porque os líderes de oposição mais populares foram proibidos de participar, e a principal coligação contra o presidente vai boicotar a votação, argumentando que o processo está sujeito a fraudes.

Henri Falcón, ex-governador e um dos líderes da oposição, decidiu furar o boicote e espera que a fúria dos venezuelanos com as mazelas econômicas se traduza em votos para ele.

Segundo a oposição, os preços subiram mais do que 8.000% no período de 12 meses até março. Os professores do ensino público ganham cerca de quatro vezes o salário mínimo, o que, pelas taxas de câmbio do mercado paralelo, equivale a pouco mais de US$ 1 por mês. Isso não chega nem perto do que os venezuelanos precisam para alimentar a si mesmos e a suas famílias.

Além da escassez de alimentos, as comunidades das escolas sofrem com o colapso do sistema de transporte e os preços inacessíveis das passagens de ônibus. Os cortes de água e luz são frequentes.

“Estamos voltando ao século XIX”, disse Luis Bravo, que faz pesquisas sobre educação na Universidade Central da Venezuela, em Caracas.

A doutora Marianella Herrera, da mesma universidade, disse que a combinação de nutrição inadequada e ensino deficiente vai custar muito caro à Venezuela no futuro, privando o país de mão de obra especializada. “Quanto mais longe isso for sem uma reversão da situação, mais difícil vai ser”, disse.

Eudys Olivier, uma dona de casa de 39 anos que mora em um bairro pobre em San Félix, no Estado de Bolívar, sul do país, e seus dois filhos, vivem do salário de padeiro de seu marido, de pouco menos de US$ 5 por mês.

“Se não há comida suficiente, prefiro deixar as crianças em casa”, disse. “Quero ver elas irem à escola todos os dias, porque é seu futuro. Mas não quero mandá-las com fome.”

Tarciso Morais
Tarciso Morais
Fundador e editor-chefe da RENOVA Mídia

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