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Renova entrevista o comunicólogo Marlos Ápyus, editor do Implicante

Tarciso Morais
Tarciso Morais
Fundador e editor-chefe da RENOVA Mídia.

Marlos Ápyus, editor geral do Implicante e colunista do Senso Incomum e Politicas.Info, aceitou bater um papo com a Renova sobre a guerra lançada pela velha imprensa, com apoio das gigantes tecnológicas, contra as mídias independentes.


A entrevista com Marlos foi conduzida por Tarciso Morais, fundador e editor da Renova Mídia, durante os dias 02 e 03 de março. Você confere as respostas na íntegra logo abaixo.

Renova: Olá! Poderíamos começar esta entrevista com um breve resumo da tua história? Quem é Marlos Ápyus?

Marlos – Creio que a melhor forma de me definir é com uma expressão pouco difundida: comunicólogo. Mas comecei como músico em 1998, conquistei um diploma em jornalismo em 2004, mas fui web designer até mais ou menos 2014, quando finalmente tentei encarar como trabalho alguns textos que eu publico na web desde a época da chamada “blogosfera”.

Renova: Acredito que a cobertura do Implicante durante todo o processo de Impeachment de Dilma Rousseff foi um divisor de águas para o jornalismo independente brasileiro nas redes sociais. Você faz parte do site desde o princípio? Poderia nos contar um pouco da história do Implicante?

Marlos – Eu acompanho o site desde o início, mas comecei como um colaborador quando ele já estava no ar há algumas temporadas. Aos poucos virei colunista, redator… E desde o inverno de 2017 edito o conteúdo dele sozinho. O Implicante começou como uma provocação: se havia ali por 2011 uma infinidade de sites com o objetivo exclusivo de defender o governo Dilma Rousseff, não faria mal haver um com o objetivo oposto. Com o tempo, o leque se abriu e, já ali nos protestos de 2013, era tido como o maior site de oposição no Brasil (um pouco pela baixa concorrência). Hoje, estamos passando por um processo de reformulação, pois era muito custoso trabalhar como um “guardião” do noticiário, rebatendo narrativas em tempo quase real. E hoje já há o Antagonista fazendo isso melhor do que qualquer um. Então, o Implicante vem buscando focar mais na análise dos acontecimentos do que na cobertura propriamente dita.

Confira o trabalho do Marlos Ápyus no site Implicante.org

Renova: Interessante o teu caminho e o do Implicante até aqui. Além dele, onde também podemos encontrar matérias escritas por ti? Como você enxerga o cenário atual das mídias independentes do país?

Marlos – Hoje estou escrevendo no Implicante, no Politicas.Info e no Senso Incomum.

Mas para entender o que penso do mundo o melhor talvez seja seguir meu perfil no Twitter ou no Facebook.

Eu vejo um momento muito delicado. A liberdade que tínhamos há alguns anos já não temos. E há forças muito poderosas com interesse em delimitá-la ainda mais. Sei que podem achar um exagero quando digo isso, mas a verdade é que me sinto censurado. Ainda falo para milhares. Mas, há pouco tempo, falava para milhões. Milhões que tinham interesse em ler o que eu tinha a dizer. E que perderam o direito de acompanhar por interesses políticos daqueles que discordavam do que eu dizia.

Renova: Três sites muito bons, acompanho sempre. Importante você ter tocado nesse assunto. De fato, estamos vendo uma ofensiva do establishment contra a internet. Você disse que falava para milhões, agora não mais. Muitas iniciativas independentes também estão sofrendo com a redução do alcance. Poderia falar um pouco mais sobre o seu caso?

Marlos – Nitidamente tudo aconteceu após a eleição de Donald Trump. A imprensa chegou a dizer que Hillary Clinton tinha mais de 99% de chance de vitória. Ou seja, cravou a vitória. E deu o republicano. Na sequência, ensaiou um punhado de desculpas. Falou em “voto envergonhado”, “interferência russa”… Até que, sem qualquer estudo sério que embasasse a tese, atribuiu a leitura completamente equivocada da realidade às “notícias falsas”, mas todos nós sacamos que estavam querendo derrubar os sites alternativos que viviam de desmentir a própria imprensa.

No mês seguinte, Google e Facebook já estavam lá abrindo espaço pra eles alterando algoritmos. Queriam, com isso, evitar que ideias não progressistas tivessem o mesmo alcance de antes. O primeiro ataque do Facebook foi direcionado não aos geradores de conteúdo, mas aos leitores. Se estes compartilhavam mais que a média, passavam a ser tratado como spammers e simplesmente ninguém lia o que compartilhavam.

Como leitores conservadores e libertários eram bem ativos nas redes sociais, de cara os sites conservadores e libertários sentiram o baque. De um mês para o outro, o Implicante viu a própria audiência desabar à metade. Na sequência, passaram a priorizar “velocidade”. O problema: sites alternativos usavam servidores mais baratos, portanto, mais lentos. Isso priorizava as grandes redações, com verba para arcar com servidores mais caros.

Mas creio que Zuckerberg já deve ter se arrependido de tentar encantar a serpente que hoje o devora. E está aí toda a imprensa fazendo campanha para que governos intervenham no trabalho do Facebook. E isso é tragicamente justo.

Renova: Realmente, após anos servindo aos interesses da grande mídia, agora Zuckerberg sofre nas mãos dela. Aqui no Brasil, estamos percorrendo um caminho bastante perigoso. Você está acompanhando os desdobramentos da força-tarefa do TSE acerca das fake news? Ao que tudo indica, os únicos alvos serão as mídias alinhadas à direita. Até a Folha de São Paulo admitiu.

Marlos – Não tinha visto ainda essa notícia da Folha, mas sabia que Fux havia utilizado um dossiê falso. Há notícias falsas correndo a “mídia” – e aqui não me refiro só à imprensa – desde sempre. A jogada suja das “fake news” é atribuir um crime coletivo a um único criminoso. E, por reserva de mercado e mesmo questões ideológicas, dar a ele uma importância que ele não tem. Ou você acha que o discurso da imprensa do mundo todo seria derrotado por uns blogueiros do leste europeu? Claro que não. Há uma realidade que entrega resultados como Trump e Brexit. A imprensa, por ser hoje um ninho de militantes, renega esta realidade e explora o que pode para mascará-la.

Renova: Concordo integralmente. A imprensa está utilizando o termo “fake news” numa tentativa desesperada de tentar continuar no controle. Estamos vendo, nos últimos dias, uma perseguição intensa contra o MBL, na tentativa de rotular o conteúdo propagado pelo movimento como fake news. Sites petistas e a grande mídia de mãos dadas contra o MBL. Você acredita que veremos ataques como esse com cada vez mais frequência?

Marlos – Sim, tenho notado. Nunca parei para pensar no que isso irá descambar. Até porque venho evitando exercícios de futurologia. Foi uma surpresa para mim, por exemplo, Mark Zuckerberg quebrar com a imprensa ao final de 2017. Ele vinha sendo cotado até mesmo para ser o candidato democrata – ou seja, da imprensa – em 2020.

Acho importante que reconheçamos que somos o lado frágil da corda. Ele arrebenta do nosso lado. Contudo, vejo uma chance de sobrevivência desde que estejamos do lado da verdade. Foi com ela que derrubamos Dilma Rousseff. Só com ela venceremos este bombardeio.

Renova: Ao que parece, a maior parte das mídias independentes com o viés direitista são iniciativas individuais, as famosas “empresas de garagem”. Com toda sua experiência, você poderia dar alguns conselhos para aqueles dispostos a fazer parte desta batalha contra a narrativa progressista propagada pela velha imprensa?

Marlos – Eu não sei se sou a melhor pessoa para dar dicas aos outros, porque eu me sinto, nesse exato momento, derrotado nessa guerra. A gente está passando por um momento de grande dificuldade no Implicante, estou tentando contornar a situação, mas tem sido bastante complicado. Estou testando umas novas ideias. Vamos ver onde isso vai dar. Com o tempo vamos saber se deu certo ou não.

Mas eu posso dar as seguintes dicas baseadas naquilo que foi um problema pra gente. Uma grande dica é não se tornar um alvo fácil pro inimigo. O que seria um alvo fácil? Você concentrar suas atividades num local. Você assumir que seu projeto é uma página no Facebook, ou é um canal no Youtube, ou é mesmo um site que você publica em WordPress. Acho que o pessoal deve começar a pensar mais na questão da marca. O meu projeto é minha marca, e minha marca está distribuída no Youtube, Facebook, Twitter, WordPress, enfim, em vários ambientes.

Eu acho mais importante o pessoal pensar mais em marca, que seu produto seja sua marca, do que necessariamente “o meu produto é uma página no Facebook”, uma coisa assim que o inimigo pode ir lá, derrubar e pôr tudo a perder. No momento em que você descentraliza as suas atividades e não fica tão dependente de uma única fonte. “Ah, meu modelo de negócio é apenas o Google Adsense”, “meu modelo de negócio é apenas uma loja”. Não, acho que tem que variar ao máximo porque aí você dificulta a ação do inimigo. No momento em que você tem vários campos de batalha e várias fontes de renda. Enfim, que você não é um alvo, um ponto central, você tá mais protegido desses caras, porque eles derrubam um canto você sobrevive por outro.

Renova: Algumas perguntas atrás você mencionou que o público conservador é bem mais engajado. Você vê essa revolta contra o establishment nas redes sociais sendo revertida em votos nas eleições deste ano?

Marlos – Então, na verdade eu acho que os dois lados são bem engajados. Só que por exemplo, a esquerda já tem a mídia do lado dela. Então, ela não precisa tá falando certas coisas, porque Fátima Bernardes já está falando, Pedro Bial tá falando, a Rede Globo tá falando o dia todo. Apesar dela ficar repetindo isto, ela não precisa ficar em suas próprias redes sociais martelando aquilo. Para o ‘reaça’ não, ele só tem o Facebook, ele só tem o Twitter, ele não tem ninguém na TV reverberando o que ele pensa, então ele usa de uma form muito mais intensa.

Quanto ao voto, de certa forma já aconteceu em 2016, vamos ver o que vai acontecer agora. Eu fico vendo ainda como uma incógnita, porque está sendo muito bombardeado. Eu não sei se o pessoal do nosso lado vai manter o poder de persuasão que a gente tinha até o ano passado. Então, eu prefiro aguardar do que dizer “ah, vai acontecer isso, vai acontecer aquilo”, mas eu torço para que o resultado de 2016 fique ainda melhor.

Renova: De fato, a rede social é o refúgio do ‘reaça’, não é à toa que a internet está sofrendo tanta perseguição. O Flavio Morgenstern desabafou meses atrás no Twitter sobre a desunião das vozes da direita brasileira, enquanto as mídias de esquerda são conhecidas pela união da narrativa. Qual sua opinião sobre essa situação?

Marlos – Que a direita ainda é bem verde e só com o tempo entenderá a importância deste diálogo interno. Ninguém quer mergulhar de cabeça numa roubada e este constante bombardeio contra a direita passa a sensação de que qualquer parceria pode ser a tal roubada, e estilhaços de uma bomba lançada contra parceiros podem te ferir.

Mas isso tem que mudar. É preciso assumir alguns riscos. E principalmente aprender a proteger alguns aliados. Mesmo sendo ateu, vejo uma saída muito bem delineada na moral cristã. Nela, o pecado é perdoado desde que o pecador se arrependa do fez. E o cristianismo vive de resgatar pecadores do vício e recolocá-los na virtude. Nessa guerra política, a direita vem largando os pecadores aos leões. E isso a enfraquece como movimento. Ou muda isso, ou dará em nada.

Renova: Marlos, muito obrigado por disponibilizar um pouco do seu tempo para esta entrevista. Tenho certeza que muitos dos que estão começando no jornalismo independente e, até mesmo, aqueles que já fazem parte desse meio vão aproveitar bastante este conteúdo.

Nesta terça-feira (03), protestos foram convocados pelas redes sociais com objetivo de impedir que o STF passe a mão na cabeça de corruptos condenados em segunda instância, você quer terminar deixando uma mensagem para estes brasileiros?

Marlos – Acho importante que tenhamos em mente que esta é só mais uma batalha de uma guerra enorme na qual estamos lutando. Que não parece, mas temos avançado. O que antes era dissimulado é hoje explícito. E, de certa forma, isso é bom, prova que os “teóricos da conspiração” tinham plena razão de suas desconfianças. Só é possível resolver o problema reconhecendo a existência dele. Creio que, mais do que nunca, o brasileiro o reconhece. Essa notícia é boa.

E mais.

Todos estes problemas não serão resolvidos esta semana. Nem este mês. Nem este ano. Na política, as coisas de fato levam tempo. A crise do petróleo atingiu o regime militar em cheio em 1973, a primeira eleição de um civil se deu apenas em 1989. A primeira reunião para domar a inflação se deu no final dos anos 1970, o plano Real só se concluiu em meados dos anos 1990.

Estamos passando por um momento muito importante. Tenho fé que, ao final, venceremos. Mas ainda estamos longe do fim. Não percamos a fé.

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