Reta Final nas Eleições de Israel


Shalom!

As #IsraElex19 entram em sua reta final. De hoje em diante restam menos de 30 dias para a decisão final do povo israelense a fim de definir o destino do Lar Nacional Judaico, hoje, o Estado de Israel.

Dia 9 de abril será o dia de se determinar se vamos ver Benjamin Netanyahu tornar-se possivelmente o primeiro ministro mais longevo da história de Israel ou, do contrário, se uma grande mudança findará por levar Benny Gantz, ex-chefe das Israel Defense Forces, o famoso Exército de Israel, a Haganá, para a liderança do Knesset.

Foi uma semana de muitas ocorrências e listo abaixo as principais peças desse intricado jogo de xadrez político:

(i) o julgamento (ainda em andamento) na Suprema Corte de Israel sobre os casos Balad e Ben-Ari (Otzma);

(ii) a flexibilização de Bibi em relação à pauta central do partido Zehut;

(iii) a polêmica de Bibi com Rotem Sela;

(iv) Bibi ensina a fazer omelete;

(v) os problemas de Bibi envolvendo acusações de corrupção;

(vi) a leitura das principais pesquisas – a redução da distância Likud-Kahol/Lavan e a oscilação dos “nanicos” na margem de 3,25%.

Nessa movimentação de peças, o grande vitorioso foi, mais uma vez, Benjamin Netanyahu, que vai se apresentando como um dos políticos mais hábeis e um dos estrategistas mais fabulosos da História Contemporânea.

Vejo hoje Bibi ao nível de um Churchill, de um Reagan ou de um São João Paulo II. Ele já ocupa na história uma cadeira entre os grandes.

Independentemente do resultado de 9 de abril e em homenagem ao que conseguiu fazer até aqui (e, ao que parece, a eleição, se seguir nesse rumo deverá ser fechada com uma margem confortável para Bibi governar), Netanyahu já figura como o maior político israelense desde a criação do Estado de Israel.

Há dois fatores, entretanto, que ainda podem mudar essa margem de absoluto conforto político que navega Bibi hoje, a saber: a Suprema Corte (item “(i)” acima) e Manderblit (item “(v)” acima).

Começo pelo mais simples, que é a revisão que a Suprema Corte está fazendo da decisão do Bechirot (O Comitê Central Eleitoral de Israel, uma espécie de Agência ligada ao Knesset que faz as vezes do TSE por lá) em face dos partidos assim tidos por “radicais”. Na semana passada o Bechirot baniu o Balad, um partido árabe antissionista de extrema-esquerda, em virtude de seu discurso violento e contrário mesmo a própria existência do Estado de Israel. O Bechirot (corretamente, ao meu ver) não tergiversou com o sionismo – qual seja, para que uma participação política em Israel seja legítima, é necessário que ao menos essa participação tenha como premissa a construção do Estado de Israel e não a sua destruição.

Não é a ideia desta coluna abrir um debate sobre o conceito de sionismo, mas um partido, ao se declarar favorável ao não reconhecimento do Estado onde atua como representante legislativo e pregar a sua destruição, não deveria sequer ter sido autorizado a atuar. Em tempo, corretamente, o Bechirot votou pelo seu banimento.

É diferente o caso do Otzma e em especial, de Michael Ben-Ari, seu líder e aderente de maneira franca e aberta a uma política neokahanista. Falamos já na coluna passada sobre o que é o kahanismo e como Ben-Ari o adaptou ao seu novo partido, o Otzma: in a nutshell, Ben-Ari defende que a cidadania em Israel é um direito exclusivo dos judeus religiosos. Isso não apenas torna os árabes e os antissionistas não-cidadãos, mas em sua premissa, o Otzma prega abertamente que os antissionistas são inimigos do Estado de Israel. É uma retórica de confronto.

Há ainda consequências para outras etnias e grupos que, mesmo sionistas, não se qualificariam como dignos de cidadania israelense na visão do Otzma: cristãos, drusos e, de certa forma, judeus que não observem de maneira rigorosa os seus mitzva (qual seja, seus deveres perante D’us e os demais judeus) – caem nessa situação os judeus convertidos para outras religiões, como uma minoria cristã ou até muçulmana. Quando morei em Charlottesville, no Estado da Virginia nos EUA nos idos de 2001-2002, tive a honra de ser aluno de um judeu que havia se convertido ao islamismo, uma das pessoas mais brilhantes e humildes que conheci na vida. Esse tipo de caso seria também afetado se as ideias do Otzma se tornassem regra.

Com isso, essa decisão do Bechirot, nota-se, tem desdobramentos muito profundos que vão muito além de um mero pleito eleitoral – ela toca e diz respeito à essência do sionismo, talvez o tema mais complexo das ciências sociais na história da humanidade.

Se mantida a decisão do Bechirot, a Suprema Corte praticamente sacramentará a eleição de Bibi – tira do pleito uma quantidade razoável de votos válidos, que não migrarão para partido algum (talvez os eleitores do Balad não compareçam, outros, talvez, migrem para o Ta’al, o outro partido árabe coligado com o Hadash, o partido comunista israelense, igualmente composto por maioria árabe). A divergência entre esses dois extremos dá a Bibi um importante apoiador oriundo da comunidade ultra-ortodoxa ao passo que, mesmo sem tirar de Gantz nada que ele já não tivesse (partidos árabes não compõem em hipótese alguma com qualquer governo liderado por sionistas, nem mesmo para fins de voto de bloqueio), aumenta a margem de um partido cujo efeito matemático à esquerda do espectro eleitoral é causar maior diluição de Gantz no Knesset.

Por outro lado, tenho apostado que a Suprema Corte poderá intervir e, mantendo o banimento do Balad, aplique a Ben-Ari o mesmo parâmetro, modificando assim a decisão do Bechirot em relação a Ben-Ari. Não acredito que a Suprema Corte chegue ao extremo de reverter totalmente a decisão do Bechirot ou, parcialmente em relação ao Balad: não acredito em qualquer cenário de termos o Balad de volta para o jogo, embora acredite em um cenário com os extremos fora desse jogo. E não seria, assim, uma derrota tão sensível para o Otzma, pois estamos tratando apenas de um possível representante (Ben-Ari), vis-à-vis um partido inteiro que hoje conta com 8 cadeiras no Knesset e nas pesquisas aparece com 4 ou 5 cadeiras (qual seja, estão no limite dos 3,25%). Por essa razão, me parece mais plausível que a Suprema Corte vá banir Balad, bem como Ben-Ari por um simples e central motivo: irão tentar preservar tecnicamente um entendimento razoável de sionismo tendente ao centro, sem antecipar a decisão sobre a Lei Básica de 2018 (atualmente em revisão na Suprema Corte). A retórica de Ben-Ari é tão radical e arriscada que, bottom line, é possível até que seu radicalismo afete a cidadania de judeus seculares se não for realinhado a um sionismo que faça sentido para os desafios de Israel para o Século XXI.

Note como a jogada de Bibi prevista há meses atrás foi genial – ao acenar para ultra-ortodoxos e endereçar o sionismo a uma leitura mais radical, aproximando a Lei Básica de Nacionalidade de uma leitura neokahanista, ele atrai todo o eleitorado ultra-ortodoxo e ganha um forte aliado em sua retórica pró-assentamentos. Ganha, também, se a Suprema Corte barra-lo: fica com os votos sem precisar entregar uma cadeira do gabinete para seu aliado mais radical, redirecionando assim o seu discurso para o centro. É a perfeita estratégia win-win de que nos falam tantos, como Scott Adams e William Ury.

Bibi esta semana oscilou do neokahanismo para o libertarianismo em questão de horas, mostrando uma capacidade de manter íntegro o espírito sionista e estando aberto inclusive para uma pauta de esquerda (e muito cara aos jovens neoprogressistas de Israel), sem abrir mão de outras pautas que são caras para a direita mais conservadora de Israel. Refiro-me aos itens “(ii)” e “(iii)”, que usarei aqui como contraponto a essa grande discussão que tem por foco a figura de Netanyahu. Volto a questão das acusações de corrupção assim que comentar, então, a polêmica com Rotem Sela, que trouxe a baila até Gal Gadot, seguido de aceno para o Zehut.

Pois bem – Rotem Sela é uma modelo israelense que conta com milhões de seguidores no Twitter. Além de muito bela e influente entre o público jovem, Rotem Sela é associada a causas progressistas (que, muitas delas, conflitam com o conceito de sionismo revisionista de alguns setores da direta do Likud, bem como o sionismo dos ultra-ortodoxos como Shas, o Bayit Yehudi, o Agudat Israel ou o Otzma). Rotem Sela é também apresentadora no Canal 13 (um grande canal de televisão de Israel) além de ser “figurinha carimbada” no HaAretz (uma espécie de “Folha de SP” de Israel).

Em meio a uma afirmação provocativa de Sela, Netanyahu respondeu em um tom inesperado, usando as redes sociais, para rebater Sela ao afirmar, “Israel não é um Estado para todos os seus cidadãos”. Sela teria feito críticas a Netanyahu dizendo que “o seu governo tratava os árabes como se eles importassem menos que os judeus”. A defesa contumaz da modelo judia causou polêmica entre meios ortodoxos, mas a polêmica só se elevou e se transformou em votos quando Bibi resolveu entrar em campo e responde-la. Fundamentou sua posição com base na Lei Básica de Cidadania (ou Lei Básica da Nação-Estado, de outubro de 2018), corrigindo a bela moça de que, conforme proclama essa lei com valor constitucional, “Israel seria o Estado da Nação Judaica e nada mais”.

A polêmica trouxe até a amiga Gal Gadot (a Mulher Maravilha) para discursar em defesa de Sela. Em meio à polêmica, Sela cruzou uma linha que não domina e inadvertidamente, prejudicou Gantz, afirmando que ele teria que compor com os árabes para formar um governo e derrotar Bibi (o que é um erro não apenas político, mas histórico, típico de quem vive em bolhas com beautiful people). O desastroso raciocínio da bela modelo foi excepcionalmente bem capturado por Bibi; e Gantz, sem abrir a boca, foi inadvertidamente prejudicado pela mera exposição de duas importantes apoiadoras de forma muito equivocada.

O desastre para Gantz não seria ainda completo, se Bibi, no dia seguinte, não tivesse se aproximado de um certo Moshe Feiglin, líder de um partido inexpressivo mas que vem crescendo nas pesquisas com oscilação positiva acima dos 3.25%. Quando a campanha começou, o partido de Feiglin, o Zehut (que quer dizer “Identidade”) sequer figurava entre os que estavam no páreo. Mas eles começaram a crescer, mesmo sendo um partido absolutamente nonsense, pois tem uma plataforma absolutamente libertária e, ao mesmo tempo… sionista!

Trata-se de um dos maiores oximoros em política que há no mundo: um partido cuja plataforma libertária (e que, portanto, tem forte influência anarco-cap), prega em muitos sentidos a destruição do conceito de Estado (como bons libertários que são), mas, ao mesmo tempo, diz defender com unhas e dentes o Estado de Israel, em um sionismo que chega as raias de defender a total soberania do Estado Israel sobre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, extinguindo assim as chances de um Estado Palestino.

Como alguém consegue defender tantas ideias incompatíveis (ser contra o conceito de Estado, mas ser sionista) e ter votos? Simples: a principal bandeira de Feiglin é a da legalização da cannabis. Feiglin disse estar disposto a debater quaisquer outras pautas, mas a única da qual ele não abre mão é a da maconha. Isso explica todo o resto do discurso desse partido. E explica, portanto, porque entre seus eleitores há tantos jovens seculares (e que aceitam facilmente argumentos incoerentes).

Na mesma semana (praticamente no dia seguinte) em que Netanyahu entra em conflito com Sela, jovem ídolo dos adolescentes, ele os afaga com Feiglin no bolso, dizendo estar disposto a flexibilizar para essa pauta específica do político pothead. Mais – no que importa, Feiglin está alinhado com Bibi: sionismo lido de forma aderente a uma leitura radical da Lei Básica de 2018 e com desdobramentos pouco positivos para a comunidade árabe antissionista e para assentados palestinos na Cisjordânia. Parece tudo muito contraditório, mas quando o Zehut é lido sob a lógica do hedonismo, as coisas começam a fazer um certo sentido.

Para acrescentar, Bibi ainda entrou em uma polêmica cômica: fez um vídeo, de certa forma bem humorado, em que ele entra em uma cozinha e tanta fazer uma omelete jogando dois ovos separadamente em uma frigideira, mas sem misturá-los antes. E enquanto frita os ovos, comenta: “veja o que eles estão fazendo: estão tentando criar um governo de esquerda (smolah) com partidos de esquerda e partidos árabes: eles não enganam ninguém”. Ao final, um ovo frito com duas gemas e um sorriso irônico para a câmera. Genial.

Embora tenha rendido piadas de políticos de esquerda, com Avy Gabbay, que chegou a declarar em sua conta no Twitter em resposta ao vídeo de Bibi (originalmente postado em sua conta pessoal no Twitter, item) que “tem gente que não sabe nem cozinhar”, fato é que Bibi executou o que Scott Adams chama de High Ground Manouver – em um simples ato grudou dois elementos tóxicos à imagem de Gantz, quando os eleitores do próprio Gantz e simpáticos a esse discurso bullish para maconheiro já começaram a cogitar migração para… o Likud.

Um detalhe importante dessa pauta da liberação da cannabis para o leitor brasileiro diz respeito à forma como a droga é produzida e comercializada em Israel. Esse tema logo traz a mente do leitor as famosas “bocas de fumo” em São Paulo e no Rio de Janeiro e a imagem de um traficante portando um fuzil. Em Israel, entretanto, a produção é caseira e a distribuição se faz toda pela deepweb ou por apps clandestinos pelos quais a droga é encomendada. O componente violência não está associado ao uso desse entorpecente, moda entre libertários e gente do meio artístico e do ramo da tecnologia. Não há uma glamurização da droga, assim como não há um banditismo violento, como no Brasil, que possa de alguma forma conflitar com as pautas ultra-ortodoxas, mais do que o antissionismo.

No Brasil a questão da liberação do comércio de cannabis é muito mais cara aos conservadores do que é para os de Israel.

Por isso, o aceno de Bibi, que no Brasil soaria como um escândalo de proporções consideráveis, em Israel sequer ocupa muito espaço nos grandes jornais e é visto como um aceno que talvez possa ter sepultado a eleição, atraindo para o Likud a simpatia de jovens que estavam, até então, militando e simpatizando com a esquerda.

Esses fatos não foram refletidos ainda nas últimas pesquisas, que revelaram assim os movimentos decorrentes do que tratamos na coluna da semana anterior: a decisão do Bechirot banindo o Balad e credenciando Ben-Ari, que fortalece o Otzma e, indiretamente, Bibi. Os números mostram uma queda vertiginosa do Kahol-Lavan (o partido de Gantz-Lapid) e uma absoluta estabilidade do Likud.

O Likud segue como um cubo de gelo no congelador – não cede um milímetro e se mantem com 30 cadeiras, mas na média das pesquisas o Kahol-Lavan, que vinha batendo 36-34 cadeiras, já aparece com 30-31. É confortável dizer que as eleições estariam cabeça-a-cabeça entre os principais opositores Netanyahu-Gantz, exceto por um detalhe: os partidos menores.

A forte oscilação nos partidos menores mostra um crescimento pequeno do Partido Trabalhista (HaAvoda), o que mostra um eleitor do bloco de centro-esquerda migrando do Kahol-Lavan para o HaAvoda. A migração do Balad para o Ta’al parece não estar ocorrendo, com crescimento, à direta do espectro político, no Zehut, no Nova Direta de Bennet, na trinca Bayit Yehudi-Otzma Yehudit-Tkuma (o bloco chamado de HaYemin), bem como no bloco HaTorah-Agudat. Shas, o partido ortodoxo sefaradí é o que mais cresceu. Partidos de centro não vem performando bem e tendem, item, a desaparecer do espectro eleitoral ao não atingir a marca de 3,25% (como o Gesher e o velho Beiteinu). O Gesher, inclusive, é uma perda forte para o Kahol-Lavan.

Esses partidos que não atingem a marca dos 3,25%, muitos dizem, podem definir a eleição por trazer eleitores que, ao fim e ao cabo, serão considerados votos inválidos, reorganizando assim as ocupações das cadeiras no Knesset. Em uma conta rápida, pude comprovar que a afirmação contraria a matemática: a saída desses partidos tende a reforçar o bloco do Likud, mais a direta, por conta do aumento de votos para os partidos ortodoxos. E de certa forma, o crescimento do HaAvoda, por incrível que isso possa parecer, é péssimo para Gantz-Lapid e ótimo para Bibi, pois enfraquece, por migração da própria posição central de Gantz-Lapid para a esquerda, tornando matematicamente impossível a formação de um gabinete e forçando Rivlin a renovar Bibi na posição de PM.

Restaria, por fim, analisar uma provável virada nas #IsraElex19 na hipótese de alguns dos casos investigados por Manderblit vir a afetar a elegibilidade de Bibi, o que, repito, acho improvável que aconteça (tanto a denúncia quanto a elegibilidade).

E como esses casos têm fortes componentes jurídicos, postergo para a próxima semana essa análise, na hipótese de termos dias vindouros com aumento de temas mais jurídicos e debates mornos no campo da estratégia política (o que também acho improvável, dada a crescente elevação da temperatura retórica nesta semana que passou).

Shabbat Shalom!

Lehitrah’ot

Os pontos de vista expressos neste artigo são as opiniões do autor e não refletem necessariamente a posição da RENOVA Mídia.

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