A versão turca para o futuro do Oriente Médio

O voluntário Lucas Krzyzanovski explica o complicado jogo de interesses no Oriente Médio por trás da invasão da Síria pelo regime islâmico da Turquia.

Nos últimos dias a Turquia iniciou a Operação Ramo de Oliveira, atacando posições da SDF (Forças Democráticas Sírias) na região de Afrin, com ataques aéreos em mais de 150 alvos, especificamente o braço armado da SDF, as Unidades de Proteção Popular (YPG), seguido de uma invasão militar com utilização de forças especiais e apoio de milícias ilsâmicas do Exército Livre da Síria (FSA), considerada a maior oposição jihadista à Assad atualmente.

Os turcos avisaram de antemão o Pentágono e obtiveram permissão da Rússia, que controla o espaço aéreo da região, com Assad se manifestando contra a invasão turca. Para entender os motivos e interesses turcos na invasão, precisamos entender o conflito Turco-Curdo que se iniciou nos anos 80 com o fundador do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), Abdullah Öcalan, que iniciou uma luta armada contra o governo secular da Turquia, que proibia o idioma curdo e não reconhecia a existência da etnia curda em seu território.

O conflito se prolongou até o ano de 2000, quando o PKK anunciou o fim da sua luta armada contra o governo em um conflito que deixou mais de 40 mil mortos. As tensões, porém, retornaram com força em 2016 e 2017, com ataques terroristas no território turco que o governo alega ter envolvimento do PKK e apoio de curdos sírios da SDF.

Mapa do Curdistão. Hoje, o território curdo na Síria aumentou.

O território curdo da Turquia é conhecido como Curdistão do Norte, com a faixa iraquiana sendo conhecida como Curdistão do Sul, a faixa iraniana como Curdistão Oriental e a faixa síria como Curdistão Ocidental ou Rojava. Essas são conhecidas como as quatro partes do chamado Grande Curdistão, uma região que abriga quase 40 milhões de curdos e outras etnias.

Os curdos sírios viveram anos na clandestinidade e sob o controle central da ditadura da família Assad, porém sem grandes conflitos armados. Após o início da guerra civil síria em 2011, o exército sírio se retirou da região, delegando o controle político e militar para a SDF, que montou o braço armado YPG para proteger seu território dos avanços do ISIS. Mas o sucesso curdo foi muito além da defesa de seu próprio território e, com a ajuda da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, conquistou diversos territórios que eram dominados pelo ISIS, incluindo sua capital na Síria, Raqqa. Isso permitiu que os curdos dominassem praticamente quase toda a faixa nordeste da Síria e gerasse preocupação no governo Assad, que condena o ataque turco, mas secretamente o apoia.

Em 2016, os curdos sírios estabeleceram a constituição da Federação do Norte da Síria-Rojava, estabelecendo um federalismo que pode ser usado como exemplo do pós-guerra na Síria. No conflito contra o ISIS, as forças curdas e americanas iniciaram uma ótima relação, principalmente com as forças especiais americanas, que lutaram lado a lado com a YPG na retomada de territórios controlados pelo ISIS.

E com isso voltamos a motivação turca para a invasão de Afrin, uma região que está separada do Curdistão sírio por uma grande faixa de terra controlada pelos jihadistas da FSA e apoiada pela Turquia. De acordo com o governo turco, a justificativa oficial para a invasão é que os turcos consideram que a YPG tem fortes ligações com a PKK, que a Turquia considera terroristas. Isso não quer dizer que isso seja totalmente mentira, pois o PKK tem um longo histórico de ataques nos moldes do IRA e do ETA e os turcos esperam ataques terroristas em espaços públicos dentro da Turquia em retribuição à esta campanha. Na realidade, a Turquia tem dois temores.

Primeiro, eles desejam impedir o surgimento de um parceiro efetivo para os Estados Unidos que possa substituir a Turquia como um aliado confiável na região (junto com Israel, que foi um dos únicos países a declarar apoio a independência do Curdistão). Em segundo lugar, eles temem que uma organização forte e de defesa curda na Síria crie as condições para a viabilidade da independência curda na região.

A busca americana por um aliado mais confiável na região faz sentido. Os turcos há muito tempo tem se distanciado da democracia e dos interesses ocidentais no Oriente Médio. A estranha relação com Putin, a aproximação com o Irã, com a Autoridade Palestina e a parceria com a Irmandade Muçulmana colocam a Turquia longe das objetivos e da estratégia do novo governo americano para o Oriente Médio. Enquanto a administração Trump distanciou os americanos do extremismo islâmico que marcou a Era Obama, finalizando o armamento e apoio para o FSA, a Turquia se vê cada dia mais como uma potencial liderança do mundo islâmico radical e isso enfraquece a confiança americana e da OTAN em geral no país de Erdogan.

O Iraque foi um grande aliado e teve méritos na guerra civil contra o ISIS após organizar as suas forças armadas e começar a retomar territórios e vencer batalhas, mas a influência iraniana sobre os xiitas iraquianos gerada pela retirada americana em 2011 não pode ser deixada de fora da equação. Os iraquianos viram o seu exército desmantelado diante do surgimento do ISIS e recorreram á ajuda do Irã, que estabeleceu milícias xiitas com dezenas de milhares de soldados que agora se recusam à receber ordens de Bagdá. De fato, essas milícias foram úteis na luta contra o ISIS, mas alguns comandantes iraquianos alegaram que essas milícias deram proteção à algumas facções ligadas à Al Qaeda e ao ISIS na região. O que não é surpreendente, se lembrarmos os traços da ligação entre o terrorismo islâmico e a ditadura teocrática iraniana.

Recentemente, a Arábia Saudita se reaproximou do governo iraquiano, após décadas de distância. Isso faz parte de uma estratégia maior para retenção dos tentáculos iranianos na região. Os Estados Unidos só podem contar com o Iraque quando e se este estiver livre da influência iraniana. Rex Tillerson, secretário de estado dos Estados Unidos declarou recentemente que as milícias xiitas iranianas devem deixar o Iraque. Portanto, com turcos e iraquianos não sendo confiáveis, a única opção americana na região vem sendo a SDF.

Erdogan percebeu isso melhor do que ninguém e deseja enfraquecer os curdos sírios e se apresentar como a única solução aos interesses americanos na região, e com isso pode controlar a influência ocidental no Oriente Médio e se apresentarem ao mundo islâmico como um líder. Já podemos olhar para o regime de Erdogan como uma ditadura islâmica embrionária que deseja a dominação da região. Um irmão gêmeo mais novo do Irã.

Erdogan é um extremista radical islâmico que tem como maior objetivo a volta do domínio turco no Oriente Médio nos moldes do Império Otomano. O secularismo turco durou quase um século e levou a Turquia a ser um dos países mais avançados da região, mas com a ascensão de Erdogan e dos extremistas islâmicos na política turca, a democracia está prestes a acabar e a Turquia não pode mais ser considerada um aliado vital para os interesses americanos na região e considerar os turcos como parte da OTAN, já que a sua importância como dissuasão de mísseis nucleares americanos contra os soviéticos na Guerra Fria ficou no passado. E é por isso que Erdogan joga suas fichas no enfraquecimento curdo.

Na verdade, os americanos não podem contar realmente com os turcos desde 2003. Durante a invasão do Iraque, quando os americanos ofereceram bilhões de dólares como ajuda militar em troca do uso de algumas bases turcas para serem usadas para invadir o norte do Iraque, onde se concentrava algumas redes da Al Qaeda, como a Ansar Al-Islam e a Jama’at al-Tawhid wal-Jihad. Os turcos negaram o pedido e o governo Bush teve que mudar de planos. A invasão pelo norte do Iraque tinha como objetivo o desmantelamento dessas redes da al-Qaeda para impedir a formação de uma insurgência contra as tropas da coalizão americana, mas a negativa turca levou os americanos a cometer um erro: o desmantelamento total do exército iraquiano comandado pelo regime baathista de Saddam.

Em fevereiro de 2003, Bin Laden emitiu uma fatwa dizendo: “Não há mal se os interesses dos muçulmanos coincidirem com os dos socialistas baathistas em combates contra os cruzados “. Portanto, essas redes da Al Qaeda, liderados por Abu Musab al-Zarqawi e oficiais baathistas se juntaram para formar a insurgência após a queda de Saddam. Esse é o embrião do ISIS, jihadistas leais a Al Qaeda e ex-militares do regime islâmico-socialista de Saddam.

Saddam antecipou a invasão americana e transferiu seu estoque de armas químicas para Assad, pois planejava fugir para a Síria antes da invasão e tentar esconder o seu envolvimento com o extremismo islâmico, que depois se tornaria a insurgência iraquiana. A inteligência americana e o Pentágono então, antecipou a invasão sem ter uma estratégia para o norte do Iraque, mas contando com a ajuda dos curdos. Assad, com ajuda iraniana, deu auxílio a insurgência iraquiana, assim como armamentos. Alimentando, assim, o futuro rival que tomaria grande parte do seu território.

Quando Assad dizimou toda a resistência que surgiu contra a sua ditadura, mas deixou o ISIS crescer sob seu nariz e conhecimento, numa estratégia conhecida como “a estratégia argelina”. Nos anos 90, o governo extremamente impopular da Argélia armou secretamente o Grupo Armado Islâmico (GIA), e o fortaleceu controladamente para aterrorizar a população. O grupo utilizava táticas parecidas com as do ISIS e chegou a matar 250 mil pessoas. Então, a popularidade do governo aumentou quando este prometeu erradicar os jihadistas e a guerra terminou em 2004, quando o governo derrotou o grupo.

Mas a população síria não se voltou à Assad. Grande parte buscou refugio e abrigo em países próximos e muitos outros rumaram para a Europa. Isso gerou uma crise de refugiados que levou milhões de migrantes econômicos de outras partes do Oriente Médio e da África a invadirem a Europa com consentimento de líderes como Angela Merkel.

Assad, então, recorreu a mesma decisão do governo iraquiano e cedeu sua soberania para a influência iraniana, que estabeleceu o Hezbollah, forças Quds e o Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC) diretamente em território sírio. Mas colocar o Irã na porta de Israel pode ter sido a pior decisão tomada por Assad desde o começo da Guerra Civil.

Israel já deixou claro que, em hipótese alguma, irá permitir a presença iraniana no futuro político e militar da Síria e já realizou inúmeros ataques aéreos contra forças iranianas, do Hezbollah e sírias. É de pleno conhecimento de todos que o Irã está utilizando o território sírio como ponta de lança para o armamento do Hezbollah e de grupos terroristas palestinos para uma ofensiva contra Israel.

A Rússia cultiva boas relações com Israel e não defende oficialmente o estabelecimento do Irã na Síria. Portanto, os russos também observam com bons olhos o crescimento curdo como uma força política de uma futura síria federalista, desde que a presença militar russa seja mantida. Isso não impediu a Rússia de dar passe livre aos turcos para o ataque em Afrin.

Os curdos são a única alternativa para a Síria que não seja um futuro de influência iraniana e uma iminente guerra com Israel. Isso definirá o futuro de Assad no poder, como a recente proximidade dos países do golfo com Israel nos mostra. Assad não é forte o bastante para segurar-se no poder se tiver o dinheiro, poder militar e influência de uma aliança Saudita-Israelense contra ele. Mesmo se aliando ao Irã.

A decisão mais importante do governo americano no momento é se irá fortalecer e ajudar a SDF e persuadir os russos a retomar seu apoio ou deixar Erdogan destruí-los e permitir que o jogo turco seja colocado à mesa. Como um dos requisitos básicos da nacionalidade é a capacidade de defender um território nacional, os curdos precisarão desenvolver essa capacidade antes de estarem prontos para reivindicar a nacionalidade. E o apoio americano é essencial para descobrirmos se os curdos detém tal capacidade.

 

Lucas Krzyzanovski é estudante de Relações Internacionais e escreve como voluntário na RENOVA Mídia.
Medium: https://medium.com/@lkrzyzanovski/
Twitter: https://twitter.com/LKSM1997
Tarciso Morais
Tarciso Morais
Fundador e editor-chefe da RENOVA Mídia

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